Passei uma semana trabalhando, descansando e aprendendo em um espaço de coworking rural

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Segunda cedo é quando a maioria dos terráqueos se encontra a caminho da labuta. Mesmo como freelancer, não estou fora dessa. Ainda que meu trajeto compreenda a distância entre o quarto e a sala do home office. Porém, naquela segunda fui trabalhar em um lugar a 125 km de casa. Um espaço de coworking rural.

Foi uma semana onde trabalho, lazer e novos aprendizados se entrelaçaram tendo como cenário uma fazenda de café do século XIX. Uma semana no meio do mato sem se desconectar da vida urbana. Por sinal, conexão foi o que mais teve no Coworking Camp. A convite da Onda, organizadora da experiência, o Hypeness pegou uma carona até a região de Amparo, interior de São Paulo, para vivenciar a proposta e contar como foi.

Meu ponto de encontro ficava no bairro de Pinheiros. Segunda-feira, 24 de julho, lá estava eu às 9h30. No mesmo carro, duas pessoas que exemplificam bem o perfil profissional de quem embarcou na viagem.

Ao volante, Júlia Yoshino, editora e revisora que hoje vive um processo de mudança de carreira. Ela aproveitaria a semana para preparar o texto de um novo livro. Mas também para explorar as possibilidades profissionais alternativas que vêm estudando atualmente. No dia seguinte, Júlia conduziria na fazenda uma sessão coletiva de Rebirthing, técnica de respiração consciente com efeitos terapêuticos. No carro também estava Átila Ximenes, videomaker e produtor de conteúdo. Além de dar expediente remoto de segunda a sexta das 9 às 13h para um contratante sediado em Fortaleza, Átila colaboraria na cobertura em fotos e vídeos do Coworking Camp.

Antes de entrar no carro, ninguém se conhecia. Duas horas depois, embicamos no portão da fazenda já como colegas de trabalho, amigos de férias, tripulantes de uma mesma jornada. E foi só pisar naquela terra para o tempo assumir um novo compasso, mais andarilho do que corredor.

A Fazenda Santa Esther nasceu no final do século XIX e suas principais construções datam dessa época. A tulha, por exemplo, costumava armazenar grãos de café. Hoje o prédio comprido de pé direito alto e janelas grandes é a coluna vertebral da fazenda, ao redor da qual orbitam colonos e hóspedes.

O salão principal da tulha funciona como área social, com sofás confortáveis, café fresco e cachorros amistosos recebendo quem chega. Logo ao lado está a cozinha, de onde sai uma refeição mais incrível que a outra. Nada com carne, tudo cheio de sabor. Alguns ingredientes são feitos ali mesmo, como o iogurte e o doce de leite. Às vezes, com a contribuição das próprias vaquinhas residentes na fazenda.

No cômodo seguinte tem mesas compridas onde é só escolher uma cadeira, sentar com seu notebook e começar a trabalhar. O silêncio é profissional. E o Wi-Fi, mais rápido que o de casa – graças ao link de fibra ótica da fazenda. Para quem precisa focar é o melhor espaço. Embora trabalhar do lado de fora, sobre uma esteira no gramado, seja sempre uma opção atraente também. Escritório no campo tem dessas possibilidades.

Ainda na tulha fica um quarto coletivo, no qual grande parte dos participantes do Coworking Camp se alojaram. Estilo acantonamento de adultos.

A fazenda funciona como um espaço de eventos sociais e corporativos. Casamentos, por exemplo, seguem sendo marcados ali e constituem uma importante fonte de receita. Porém, quando Bruno Paschoal e Bárbara Marra assumiram a administração, o lugar passou a ganhar ocupações novas e diversas.

Desde que começou a operar oficialmente sob a atual direção, em abril de 2017, a fazenda já abrigou um retiro de yoga e uma imersão para prática de dança. Agora, o Coworking Camp. “A gente tá testando o que chamamos de nova ruralidade. O potencial de trazer elementos fortes do urbano para um espaço que é rural. Trazer pessoas que são nômades digitais, pessoas que podem trabalhar da onde quiserem, para viver essa experiência em um ambiente rural. Exercer as mesmas funções que cumprem nos centros urbanos estando no meio da natureza, Bárbara conta.

Segundo Bruno, dois princípios vêm norteando a ressignificação do espaço. Ele explica: “O primeiro é a experimentação. A gente tá experimentando desafios na relação com o próprio trabalho. Porque o trabalho se tornou tão integrado que hoje, muitas vezes, você já não sabe mais quando está trabalhando no ambiente onde está. E o outro é empoderamento. A gente vive num mundo em que você não precisa aprender somente na universidade, num ambiente formal. A gente acredita muito no aprender fazendo.

A própria mudança do casal para a fazenda, sua atual residência, teve um pé em cada princípio. “A gente nunca tinha morado em uma casa, sempre em apartamento. Quando vim pra cá, eu não sabia plantar. Estar vivendo aqui e aprendendo tanto com um mundo de gente que vem é um ato de empoderamento muito grande pra mim, diz Bruno.

Durante o Coworking Camp, além do trabalho urbano de sempre realizado em um espaço rural, os dias úteis tinham momentos de respiro com atividades programadas. Participava quem pudesse e quisesse. O que na cidade seria uma pausa no expediente para tomar um café ou fumar um cigarro se tornava o momento de explorar uma nova área de conhecimento. Muitas vezes, arregaçando as mangas.

Na terça e na quinta teve mutirão na horta. Mão na terra para plantio de novas mudas de manjericão, tomate, feijão, abóbora. Em outro dia teve oficina de graffiti, onde quem nunca pegou uma lata de spray pôde esboçar seus primeiros riscos e cortes. Sob orientação do artista campineiro Ots, uma porção de seres urbanos em uma fazenda no interior experimentando técnicas de arte de rua sobre painéis posicionados na grama. Esse tipo de mashup teve de monte.

Uma manhã passamos aprendendo a fazer pão de fermentação natural. A mesma massa que preparamos durante a aula se tornou a pizza que comemos mais à noite. Em outro momento, tivemos uma conversa sobre o tema “Futuro do Trabalho”, conduzida pelo pessoal da Box 1824 – talvez a mais conhecida empresa brasileira de pesquisa de tendências. E, para quem quisesse olhar mais pra dentro de si, era possível fazer sessões de coaching pessoal e profissional, arte terapia e massagem, com profissionais que estavam trabalhando ali.

A Santa Esther faz parte da WWOOF e Workaway, redes onde viajantes do mundo todo se inscrevem para oferecer trabalho em troca de hospedagem, alimentação e uso do espaço (aqui uma matéria a respeito). Por conta disso, o Coworking Camp teve um componente de intercâmbio cultural também. Naquela semana havia uma alemã, uma eslovaca e quatro holandeses na fazenda. Não estavam ali somente a passeio.

A eslovaca Petra Petrina, que mora no Brasil há algum tempo, deu aulas de yoga todas as manhãs. Aulas dirigidas em inglês, diga-se. Já o holandês Jelle Den Blaauwen deu expediente na horta, pois tem planos de se tornar um fazendeiro full time em seu país. Aproveitando a viagem, Jelle emprestou seus conhecimentos de engenharia para consertar algumas máquinas que estavam paradas na fazenda.

Outro holandês que participou do Coworking Camp foi o designer Willem Minderhoud. Na tarde da quarta-feira, ele conduziu uma divertida oficina de Visual Thinking, onde quem participou pôde soltar a mão nas canetinhas para expressar de forma gráfica suas ideias. “Aqui tem me ensinado muito sobre as diferentes formas pelas quais as pessoas interagem com o espaço. As pessoas trabalham, descansam, podem fazer um programa intensivo de atividades. E, ocupando o espaço cada um da sua forma, conseguem resultados diversos. O que vejo aqui é um lugar produtivo e com uma atmosfera relaxante ao mesmo tempo. Acho bem interessante a forma como isso é combinado aqui”, analisa Willem.

Maíra Rocha Machado é professora no curso de Direito da FGV e também atua há uns bons anos como bailarina. “Eu participo de várias experiências dessas. De reunir um grupo de gente que não necessariamente se conhece e acontecerem coisas a partir disso. Pra mim isso já é uma experiência adorável por si. Só de estar em um lugar assim já me agrada”, ela conta.

A professora foi ao Coworking Camp acompanhada pelos dois filhos; Felipe, 12 anos, e Murilo, 10, os dois em plenas férias letivas. Ao mesmo tempo em que curtiu os atrativos da fazenda com os meninos, Maíra também aproveitou a semana para trabalhar na sua próxima publicação científica: “A gente está nos últimos acertos com a diagramadora. Falo com ela duas, três vezes ao dia. Não tinha a menor chance de eu ficar sem conexão esses dias”.

Quando o dia se encaminhava para o fim e a temperatura caía, sempre tinha alguma atividade recreativa. De maneira geral, envolvendo comes e bebes oferecidos por produtores da região. Em um dia foi degustação de queijos da Fazenda Atalaia. No outro, de cafés da Fazenda Palmares. Teve cervejas artesanais da Quinta do Malte, vinhos da Vinícola Terrassos e cachaças da Fazenda Benedetti. Esquema happy hour rural.

Teve também música ao vivo. Toda noite e para todos os gostos. Passando pelo pop rural do cantor Digo no gramado. Pelas vibrações positivas da banda Cooperativa do Reggae à beira da fogueira. Pela cantora holandesa Stefanie Meijer tocando bossa nova em português ao violão. E por um improvável concerto de cítara na igreja da década de 50 que tem dentro da fazenda, conduzido por Erik Lindgren, membro da banda Groove Masala.

Escutar sons indianos frente à imagem de Jesus Cristo pintada na parede de um templo católico construído dentro de uma fazenda no interior do Brasil. Naquele momento, o Coworking Camp atingiu níveis estratosféricos de ressignificação. A conta já podia ser fechada.

Mais de 40 pessoas passaram pela fazenda naquela semana. Para alguns, foram dias de férias. Aquele único tipo possível de férias quando não se bate cartão: conectado ao e-mail, respondendo clientes, enviando propostas. Para outros, significou trabalho. Mas trabalho livre dos venenos da rotina. Trocando o trajeto no trânsito por alguns passos na grama, com direito a pássaros cantando e mugidos esporádicos de trilha. Essas duas situações apontam para sentidos opostos da mesma via, uma tendência que vem sendo chamada de ‘workation’ (work + vacation).

Para muitos, o Coworking Camp significou desenvolvimento pessoal. Um momento de reflexão sobre quem se é e para onde se quer caminhar. Aprender algo novo sobre si mesmo, adotar um novo olhar para o que está no interior. Foi também um processo de detox 360, respirando ar puro, com paisagens verdes por todo lado, comendo saudável, tomando banho de cachoeira.

Para todos, foi um pouco de cada. Descanso, trabalho e busca por autoconhecimento em um tempo e espaço diferentes do dia a dia. Um retiro de trabalho. Um acampamento para adultos. Uma oportunidade para reconexão com o ambiente rural sem perder as vantagens do meio urbano. Na companhia de pessoas que, se até então eram desconhecidas, bastavam alguns minutos de prosa para uma conexão ser estabelecida. No mínimo, a descoberta de que tem mais gente remando pelas mesmas águas que você. Navegando em busca de mais propósito na profissão, mais conexão com a natureza, rumo ao equilíbrio entre a vida desejada e a vida possível.

Quando chegou o sábado, 29 de julho, e um brunch de despedida foi servido, ninguém tinha muita pressa para ir embora. Que bom que esse foi apenas o primeiro Coworking Camp. Vale ficar de olho nas páginas da Onda e da Fazenda Santa Esther para mergulhar nos próximos.

Todas as fotos © Ilana Lichtenstein

Via Hypeness

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