Fiquei um mês seguindo o veganismo, e o inesperado aconteceu

Quando surgiu a oportunidade de fazer esse desafio, pensei comigo: Vai ser moleza! Afinal, não consumo carne bovina há mais de 15 anos, além de ter sido vegetariana por muito tempo.

Por algum motivo, pensei que o fato de tirar apenas ovos e laticínios – além do frango e peixe – da dieta seria simples. Na verdade, acho que deve realmente ser mais difícil para quem está acostumado a consumir carne bovina praticamente todos os dias, caso da maioria dos brasileiros – a média é de 38 kg consumidos por habitante/ano. Mas não foi tão simples assim.

Apesar de ter ficado animada com a ideia, já que há algum tempo gostaria de voltar ao vegetarianismo mas por comodismo/preguiça/falta de organização estava sempre adiando para o próximo ano, senti um pouco de receio. Afinal, teria que deixar de lado vários alimentos que gostava muito, como peixes, frutos do mar e diversos doces, cuja base quase sempre é o leite de vaca ou os ovos de galinha.

OS TIPOS DE VEGETARIANISMO

Então, para me ajudar nesta jornada, me muni de informação. Fui atrás de documentários, livros, blogs e associações que falassem sobre o assunto.

Aqui no Brasil, estima-se que 15 milhões de pessoas sigam o vegetarianismo, e 5 milhões de pessoas sejam adeptas do veganismo. Isso são dados de uma pesquisa realizada pelo IBOPE em 2012, então é provável que o número já tenha crescido, e muito.

Só em São Paulo, quase 10% da população é vegetariana. Em Curitiba, cidade considerada a capital vegana do país, estima-se que 11% dos moradores sejam ‘veggies’. No Rio de Janeiro são quase 700 mil pessoas que declararam não comer nenhum tipo de carne, e em Fortaleza, 350 mil.

Os números parecem pequenos, mas este estilo de vida vem atraindo cada vez mais e mais pessoas. E com isso, o mercado de produtos para veganos também tende a crescer. Na Europa, por exemplo, 14% dos produtos lançados em 2015 são vegetarianos ou veganos.

Os estabelecimentos veganos ou vegan friendly têm crescido rapidamente. Na foto acima,

feijoada do Veg e Lev

Esse sorvete de chocolate, do lado esquerdo, não deixa nada a desejar para um sorvete de leite

A Nutrikéo, empresa francesa de consultoria em estratégias alimentares, diz que o mercado de proteínas vegetais poderá superar os US$ 11 bilhões (R$ 35 bilhões) em 2018, o que significaria um aumento de 40% em cinco anos (dados da SVB).

Desde 2014, existe aqui no Brasil o Selo Vegano, uma certificação criada pela SVB que vem ajudando a regulamentar este tipo de produto, garantindo ao consumidor que o desenvolvimento e fabricação de um determinado produto não teve qualquer uso de animais. A maioria dos produtos certificados é do ramo da alimentação, mas há também alguns tipos de cosméticos já aprovados pelo selo.

Falando em cosméticos, este também é um mercado crescente no Brasil e no mundo. Cada vez mais pessoas prestam atenção em alguns detalhes que pouco tempo não eram motivo de preocupação, como o fato das marcas realizarem testes em animais, ou então se há algum produto de origem animal entre os componentes dos seus produtos.

Marcas de shampoo veganas facilmente encontradas no mercado

Na moda, a Insecta Shoes, de sapatos, a Zerezes, de óculos de sol, e a Svetlana, de roupas e acessórios, são empresas que vêm se destacando cada vez mais no mercado nacional.   

Apesar de ainda não existir um número exato do tamanho deste mercado no Brasil, pesquisas afirmam que a demanda por produtos vegetarianos e veganos é muito maior do que a oferta. “O número tem crescido nos últimos anos, mas acreditamos que ainda há uma demanda reprimida bastante significativa”, contou Guilherme Carvalho, secretário executivo da SVB, ao Abras Brasil.

Buddha Bowl do Greengo Vegetariano

Em janeiro deste ano, uma pesquisa realizada pelo Instituto Datafolha descobriu que 63% dos brasileiros gostaria de reduzir o consumo de carne, e que 35% se preocupa com a relação entre o seu consumo e a sua saúde. Segundo o IBGE, o consumo realmente vem caindo nos últimos anos, sendo que em 2015 atingiu seu menor nível desde 2001.

Já quanto aos “tipos” de vegetarianismo, são quatro os grupos principais:

> Ovolactovegetarianos

É o tipo mais comum. Não consomem nenhum tipo de carne, mas consomem laticínios e ovos. Quando alguém se diz vegetariano, quase sempre pertence a este grupo.

> Lactovegetarianos

Não consomem nenhum tipo de carne, além de excluírem os ovos da dieta. Consomem lacticínios.

> Vegetarianos estritos

Não consomem nenhum tipo de carne, laticínios ou ovos em sua alimentação.

> Veganos

O vegano não consome nada de origem animal em nenhuma área de sua vida. Isso inclui alimentação, vestuário ou qualquer outro tipo de atividade que envolva sofrimento animal. Produtos com qualquer ingrediente ou insumo de origem animal ou ainda testados em animais também ficam de fora.

Há ainda outras vertentes, como o crudivorismo, onde só alimentos crus são permitidos, o frugivorismo, onde só frutas fazem parte da alimentação, e o ovovegetarianismo, onde somente carne e laticínios são excluídos da dieta.

Fonte: Vista-se

VEGANISMO: MUITO MAIS DO QUE UMA DIETA

Então, nesse momento, descobri que o buraco era mais embaixo. Não poderia usar couro nem lã, comer gelatina ou mel, nem fazer depilação com cera feita de mel de abelha, por exemplo. Quanto ao vestuário, seria mais simples, já que por questões ideológicas não costumo comprar este tipo de produto faz tempo. Tirando uma bolsa que ganhei de uma tia no Natal, não tenho nada de couro no guarda-roupa. Nem de lã, seda ou pele de algum animalzinho.

Outro departamento que a gente não presta muita atenção na correria do dia a dia são os produtos de beleza. Após procurar na internet uma lista com empresas que testam e que não testam em animais, descobri que quase toda a minha necessaire deveria ir para o lixo. Por sorte, meu shampoo e condicionador são de uma marca que eu já sabia que era cruelty free e livre de produtos animais. Mas hidratante, rímel, blush e corretivo estavam na lista negra.

Há ainda os produtos de limpeza. Por incrível que pareça, a maioria é testado em animais e/ou possui produtos de origem animal na sua composição. As alternativas no mercado para este tipo de produto ainda não são muitas, e as que existem acabam tendo um custo um pouco elevado. Uma das opções que encontrei na internet é utilizar a popular mistura de vinagre com bicarbonato de sódio, mas ela não serve para tudo – não substitui o amaciante, por exemplo.

Como você pode perceber até aqui, as mudanças na vida de alguém que quer aderir ao veganismo não são poucas. É preciso muita disposição, interesse, organização, força de vontade e compaixão. Não somente pelos animais, mas pelo mundo em que vivemos.

NÚMEROS QUE ASSUSTAM: MUITO ALÉM DO SOFRIMENTO ANIMAL

Ao assistir o documentário Cowspiracy, disponível no Netflix, diversos dados vieram à tona, me deixando muitas vezes com dor de cabeça de tanta informação. Você sabia, por exemplo, que a pecuária é responsável por 18% de todas as emissões de gases do efeito estufa no mundo? Que para produzir um hambúrguer de 114 gramas são utilizados 2.500 litros de água? E que isso é o equivalente a quase dois meses de banho?

Ou ainda que a criação de animais para alimentação é responsável por 30% do consumo de água do planeta? Há também estudos que garantem que, se não mudarmos a forma como consumimos peixe, até 2048 eles estarão extintos.

Isso sem falar no alarmante número de assassinatos de ativistas no Brasil. Desde o fim dos anos 90, mais de 1.000 ativistas foram mortos, sendo que a grande maioria deles eram ligados a causa do desmatamento da Amazônia pela indústria agropecuária.

Pois é. Estes dados também me deixaram um pouco tonta. Isso que mencionei apenas fatores ambientais, pois se entrasse no mérito do sofrimento animal provavelmente faria você perder a fome. Mas se você deseja deixar carne e derivados para trás, é de extrema importância adquirir este tipo de informação. Quanto mais você aprende, com menos vontade de ingerir estes tipos de alimento você fica.

É CARO SER VEGANO?

No começo, você fica meio perdido, é normal. Mesmo não consumindo carne bovina, o frango estava muito presente na minha rotina. Era meio que a base de todo o almoço. E agora? Ia viver só de salada?

Passei em um armazém vegan (dica: se você é daqui apareça por lá pra comer uma coxinha de jaca) aqui de Curitiba e fiz umas compras que chamei de “kit de sobrevivência”. Comprei manteiga, requeijão, queijo, leite, macarrão, pão e alguns congelados, como quibe de abóbora e pão de queijo. Tudo vegano. Na hora de pagar, veio o susto. Pensei: “caramba, é muito caro ser vegano!”.

Quase não usei essa manteiga, apesar dela ser gostosa

Fui embora pensando que algo estava errado. Não podia ser tão caro levar uma alimentação mais natural. Foi então que lembrei de um livro que tinha em casa, com receitas 100% veganas. Comecei a folhar, e percebi que tudo que tinha comprado naquela tarde não era necessário, era supérfluo.

Claro, tem um item ou outro que acaba quebrando um galho. O quibe congelado, volta e meia ia pro forno junto com uns legumes e em poucos minutos tínhamos uma refeição pronta.

Esse requeijão, que de requeijão não tem nada, vai bem no pão do café da manhã, e também em receitas mais elaboradas, como uma abobrinha recheada, por exemplo. Mas depois também aprendi a fazer alguns requeijões (leia-se pastinhas) em casa mesmo, com ingredientes que nunca pensei que poderiam dar certo, como inhame.

Então, fui percebendo aos poucos que o segredo para ser um vegano feliz está em aprender a misturar (e a experimentar) novos alimentos, em ser organizado e em ser prático também. Afinal, hoje vivemos na correria, e ninguém tem tempo sobrando para gastar na cozinha.

Na pressa, joga tudo no forno que não tem erro.

Arroz + feijão + salada + algum acompanhamento, como legumes ou grãos, são acessíveis,

nutritivos e quebram o maior galho dentro e fora de casa

Saladona de legumes: rápido, prático, refrescante e gostoso

Um dos segredos está no colorido do prato

Se você chegou até aqui, e ficou curioso para saber como foi toda a minha experiência, fique ligado que em breve postaremos a parte 2 deste desafio de um mês, seguindo o veganismo.

Imagens © Gabriela Alberti/Pinterest/Vista-se

Via Hypeness

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