O adeus a Chris Cornell (Soundgarden e Audioslave), uma das grandes vozes das últimas décadas

Se o som de Seattle, aquilo que ficou conhecido como “grunge”, foi o que nos salvou do despropósito histriônico e vazio das cabeleiras armadas cobertas de laquê do hard rock da década de 1980, vale lembrar que antes de existir o Nirvana (e muito antes de Nevermind, o mais importante disco dessa geração, ser lançado) já existia o Soundgarden. Dentre as quatro grandes bandas de Seattle da década de 1990 (Nirvana, Pearl Jam, Alice In Chains e Soundgarden), a única a já possuir um contrato com uma grande gravadora antes da explosão do Nirvana era o Soundgarden – que tinha na sonoridade, na força das guitarras, mas, acima de tudo, na impressionante voz de seu vocalista, Chris Cornell, sua arma mais importante.

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Chris Cornell foi encontrado morto no banheiro de um quarto de hotel em Detroit, nos EUA, aos 52 anos, depois de um show do Soundgarden que, segundo ele próprio noticiou em seu twitter, havia esgotado os ingressos em uma grande apresentação, horas antes. A causa da morte ainda não foi divulgada, mas há uma forte especulação de que Cornell teria se suicidado.

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Caso o suicídio venha a ser confirmado, o vocalista se juntará a Kurt Cobain (vocalista do Nirvana, que suicidou-se em abril de 1994) e Layne Stanley (vocalista do Alice in Chains, que morreu de overdose em abril de 2002) como mais uma confirmação de certo destino trágico que parece rondar as bandas de Seattle da década de 1990. Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, que superou os limites da década, tornando-se uma das grandes bandas americanas dos últimos tempos, parece, no entanto, bastante longe de tal destino.

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Ainda assim, a morte de Cornell surge como um tanto surpreendente, considerando que, desde sempre, antes de qualquer outro, era ele quem melhor parecia lidar com o estrelato que o aguardava – e que, em seu caso, parecia de fato fadado a acontecer, como uma roupa que perfeitamente lhe servia. Com uma estética mais próxima do Heavy Metal do que do Punk (com fortes tintas da psicodelia dos anos 1960 e do classic rock de bandas como Led Zeppelin e AC/DC), o Soundgarden, formado em 1984, tinha em Cornell um cantor de voz impressionante, ora bela e apolínea, ora rascante e visceral como um uivo – colocando-o mais como um cantor oriundo da hiper-expressão vocal do blues do que do rock da época.

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Soundgarden nos anos 90

Seu visual e sua postura no palco o colocava como uma estrela inata que, diferentemente de seus pares do grunge, não parecia oferecer qualquer resistência ou mesmo lamento diante do sucesso que sua banda começava a alcançar, antes mesmo de Nevermind, do Nirvana, transformar a cena que o Soundgarden havia ajudado a fundar na meca do rock da década de 1990.

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A estranheza em suas canções, a elaboração maior da sonoridade, e certa tendência a experimentar e almejar construções conceituais nas estruturas estéticas esperadas de uma banda de Seattle, colocou o Soundgarden em posição peculiar dentro da cena “grunge”: a mais antiga dos quatro grandes nomes do movimento é provavelmente a que alcançou menor êxito comercial – ao menos em comparação ao Nirvana e ao Pearl Jam – mas é também a que pavimentou o caminho para que a revolução oriunda de Seattle “salvasse” o rock de então.

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Em 08 de março de 1994, menos de um mês antes da morte de Kurt Cobain e, portanto, no apagar de luzes do movimento grunge, o Soundgarden lançou seu disco de maior sucesso, Superunknown, direto para o topo das paradas americanas. Foi desse disco que a canção símbolo da banda, “Black Hole Sun”, foi retirada. O disco terminaria vendendo quase dez milhões de cópias pelo mundo, e indicado a nove grammys.

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Capa do disco Superunknown

Ali a banda deixava um pouco de lado os excessos conceituais, na direção de uma desconstrução mais direta e comercialmente bem sucedida do que se entendia como metal. Superunknown cumpriu com êxito a cartilha do movimento que ajudou a fundar: tratar o sentimento de alienação, isolamento, melancolia e fúria que tomava conta da juventude da época com guitarras explosivas e vocais gritados – mas trazendo a singularidade de uma abrangência maior de influências que tornou o Soundgarden a banda que foi.

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Outra parte importante da cartilha cumprida por Cornell em relação a seus conterrâneos e contemporâneos, foi o intenso uso de drogas, como uma última encarnação em Seattle da tríade fundamental que definiria o comportamento do estilo de vida do rock ao longo da segunda metade do século XX, juntando o ritmo com o sexo e as drogas. O cantor afirmou, já na metade dos anos 2000, que havia largado as drogas, ou sabia que tal estilo de vida viria a acabar com sua vida.

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Depois do fim do Soundgarden, em 1997, Cornell defendeu por quatro anos uma primeira carreira solo, até que, em 2001, juntou-se a três membros da banda Rage Against The Machine (que desejavam seguir tocando depois que o vocalista Zack de la Rocha deixou a banda) para formar o supergrupo Audioslave. O disco de estreia, batizado com o nome da banda, viria a vender três milhões de cópias, alcançando, porém, críticas divididas – a unanimidade parecia ser de fato a voz de Cornell.

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A banda Audioslave

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Depois de lançarem outros dois discos, o Audioslave se desfez por conta da reunião do Rage Against the Machine, mas também por diferenças internas – apesar de escrever a maioria das canções, Cornell estaria insatisfeito com o acordo financeiro dentro da banda. Com o fim do projeto, Cornell retomou sua carreira solo, até 2010, quando o Soundgarden enfim retomou suas atividades, lançando o disco King Animal, em 2012, recebido com louvor pela crítica.

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O Soundgarden em sua reencarnação, já em 2010; abaixo, cenas do último show da banda, horas antes da morte de Cornell

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Chris Cornell deixa três filhos (dois do primeiro casamento e um do último) e uma mulher, além de um importante legado como um dos mais fortes nomes dentro do último grande movimento a forjar a história do rock.

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Workaholic incorrigível, Cornell deixou a vida fazendo o que melhor sabia: cantando. É mais um capítulo de uma história forte, bonita e importante que se encerra – oriunda de um momento em que não bastava o visual adequado, a voz correta ou a melhor roupa para se fazer sucesso; era preciso criar, se entregar, fazer de sua banda um acontecimento que espelhasse visceralmente a experiência de vida do público, para só então poder ser considerado um grande artista do rock – e Chris Cornell o foi.

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© fotos: divulgação

Via Hypeness

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