Como um pó capaz de purificar água barrenta vem mudando a qualidade de vida de milhares de pessoas

O acesso à água potável pode parecer algo banal para quem mora em médias e grandes cidades, mas, no Brasil, cerca de 35 milhões de pessoas levam a vida sem esse direito tão básico, segundo o Instituto Trata Brasil. É o caso de milhares de moradores do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, que dependem de uma iniciativa inovadora para beber água limpa.

Desde 2014, a P&G tem no país o programa Água Pura Para Crianças, beneficiando cerca de 36 mil pessoas, entre o Vale do Jequitinhonha e comunidades ribeirinhas da Amazônia. A empresa fornece gratuitamente sachês de 4g de pó, capazes de, em apenas meia hora, tornar 10 litros de água suja próprios para consumo.

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A convite da empresa, o Hypeness foi até a Agrovila, uma das 175 comunidades rurais atendidas pelo programa, para conhecer a realidade das famílias ajudadas e ver como acontece o processo de purificação. O local fica a 80 km de Chapada do Norte, a cidade mais próxima, e foi criada em 2010, depois que remanescentes de quilombos foram deslocados de onde moravam, às margens do Rio Setúbal, para que uma barragem fosse construída.

A promessa era que o governo conseguisse controlar melhor o fluxo de vazão do rio, evitando problemas nos períodos de seca. A água serviria também para irrigar plantações, impulsionando a economia local, mas tudo não passou de promessa. Durante nossa visita, encontramos a bomba de água quebrada, e os moradores contaram que ela fica assim em mais da metade do ano.

Rio Setúbal

Rio Setúbal

A caminho da escola

A caminho da escola

É nesse vácuo deixado pelo descaso do poder público que o sachê de purificação ganha importância. Quem vive na Agrovila caminha quilômetros por estrada de terra para chegar até o rio e levar água barrenta até às casas. O líquido marrom se torna potável em trinta minutos.

Demonstração do P&G Sachet

Demonstração do P&G Sachet

Pablo Silva - Zelo Imagens (51)

O processo é simples: basta despejar o conteúdo de cada sachê num balde de 10 litros de água e misturar energicamente por cinco minutos. O sulfato ferroso presente no pó faz com que a sujeira decante e se deposite no fundo do recipiente. Depois de mais cinco minutos de espera, é hora de filtrar a água com um pano de algodão. Então, basta aguardar mais vinte minutos para que o hipoclorito de cálcio elimine todas as bactérias presentes no líquido.

Antes e depois

Antes e depois

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O pó não é capaz de purificar água contaminada por metais pesados, então não é possível utiliza-lo na região de Mariana, por exemplo. Daniela Rios, responsável pela área de políticas públicas da P&G, explica que, em outros países, o programa foca em situações de emergência, como terremotos, em que o abastecimento de água é interrompido por algum tempo. Como no Brasil isso não acontece, eles optaram por trabalhar em locais em que a água potável não chega nunca.

O trabalho é realizado em parceria com a ONG Child Fund, responsável pela distribuição dos sachês e dos kits compostos por dois baldes de água, uma colher de pau e um pano de algodão. Para se manter em funcionamento, a organização conta com uma rede de doadores, que eles chamam de padrinhos – você pode apadrinhar uma criança através do site.

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Na escola

São mais de 320 voluntários na região, que também se encarregam de ensinar a produção de mudas de plantas, outros métodos de tratamento de água, além de incentivar o uso dos sachês e a reciclagem do lixo. O descarte correto dos resíduos da água purificada também é foco da Child Fund.

De acordo com os responsáveis pelo programa, desde 2014 mais de 3 milhões de sachês foram distribuídos no país, purificando mais de 30 milhões de litros de água. No mundo, desde 2004, estima-se que foram 11 bilhões de litros limpos, e a meta é chegar a 15 bilhões até 2020.

Pablo Silva - Zelo Imagens (20)

Maria de Cássia

Maria de Cássia

Maria de Cássia Martins, moradora da Agrovila e representante da comunidade, contou que, no começo, a iniciativa enfrentava resistência: havia crianças que se recusavam a beber o líquido cristalino, pois só conheciam a água na versão barrenta.

De acordo com a Child Fund, o programa ajudou a reduzir a incidência de doenças como disenteria em até 50%. Maria de Cássia afirma que o desempenho e a frequência escolares também mudaram, opinião corroborada por Raimundo Nonato Rodrigues, auxiliar de enfermagem que atua no colégio local: “Depois do programa entendemos o porquê de tanta diarreia, desnutrição e infecções, que levavam até à mortalidade infantil”.

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Dores de cabeça, anemia e até manchas na pele também tiveram registros 50% menores a partir da implementação do programa, de acordo com dados do Child Fund. O trabalho de conscientização também fez com que os moradores adquirissem hábitos como lavar as mãos, limpar a casa, preservar o meio ambiente e combater a dengue.

Apesar de todos os benefícios, o Água Limpa Para Crianças não passa de um paliativo, condição reconhecida pela própria P&G. Os moradores da Agrovila seguem cobrando das autoridades responsáveis o acesso direto à água tratada, além de melhores condições de vida e de educação para as crianças. Afinal, já faz sete anos que eles foram obrigados a deixar suas casas, à espera de promessas jamais cumpridas.

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Fotos sem crédito: Tati Estevão/Child Fund

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Via Hypeness

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