O primeiro álbum visual do Brasil é de uma mulher e é incrível

Nunca subestime a força da natureza. Inspirada pelos raios e trovões que regem as leis do atual cenário da música independente brasileira, Luiza Lian lança “Oyá Tempo”, o primeiro álbum visual em formato média-metragem do país produzido com baixo orçamento. Provocando tempestades, a cantora (que também é artista visual) prova com esse filme, assinado pela Filmes da Diaba, que é possível inovar no formato visual e tecnológico de uma obra artística sem, necessariamente, depender de uma grande gravadora.

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Regida por Oyá, divindade das águas e do ar na mitologia iorubá, Luiza parece mergulhar nas palavras de outras entidades como a grandiosa Marisa Monte, que cantou “deixe sua natureza se manifestar”. Assim como ela, encontra força em si mesma para sobreviver em meio ao mercado machista da música.

Não por acaso, um dos diretores do clipe é uma mulher que foi além: “era pra gente fazer o clipe de uma música só, mas sugerimos fazer um álbum visual inteiro”, conta Camila Maluhy em entrevista para o Hypeness.

Nesse momento lhe pergunto: “Como é possível conceber um trabalho que tem o mesmo formato de ‘Lemonade’ da Beyoncé sem os mesmos recursos que ela teve?”. Maluhy confirma que a obra da popstar inspirou a criação de “Oyá Tempo” em relação ao formato, com quase 25 minutos de duração, e revela alguns segredos para realizar um trabalho dessa magnitude: “Gravamos em vinte e quatro dias na cidade de Ubatuba – SP e ficamos hospedados na casa do outro diretor Octávio Tavares. A gente tinha basicamente uma câmera 6D, uma lente 50 milímetros analógica e um led simples de mão para a luz. Usamos luz natural. Focamos nossos esforços nas pesquisas visuais antes de rodar o filme. Foi um trabalho na raça. Um tripé. Um shoolder. Essa é a graça do filme, tem a ideia do cinema novo: poucos recursos e bastante conteúdo.”

Segundo ela, é possível fazer coisas grandiosas com pouca grana. Aos artistas independentes que querer gravar um clipe ou (por que não?) um álbum visual como o de Luiza Lian, Camila deixa a dica: “Diferente de alguns processos, a gente não trabalhou com roteirização, trabalhamos com a construção de um mapa visual, que seria um norte pra onde a gente queria chegar.” A cineasta reforça que é importante tem um objetivo claro em mente: “primeiro tínhamos que entender o que queríamos e o que dizia as canções da Luiza. Por fim estávamos falando de mitologia, força e empoderamento”.

Luiza Lian para o Hypeness

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Através desse experimento áudio visual, Luiza Lian revela estar no meio de um processo de transição, entre o primeiro álbum (Luiza Lian – 2015) e o próximo disco, que já está sendo gravado por ela e por músicos do Selo Risco. Por enquanto, “Oyá Tempo” mostra uma artista de composições umbandistas, que se desconstrói ao sair do lugar comum e do formato compacto, num tempo em que a velocidade da internet impera sobre todas as coisas.

Virtualidade e espiritualidade andam juntas”, acredita e inspira-se. “A realidade é multidimensional, por isso procurei armar uma teia entre espiritualidade, virtualidade, pensamento e natureza”, complementa. Formada em Artes Visuais pela Unesp, conta que sempre foi muito ligada à estética nas poesias, antes mesmo de virarem músicas, e que Oyá Tempo é, antes de tudo, uma performance. A cantora teve a oportunidade de colocá-la em prática durante o show de lançamento do álbum na Casa do Mancha. “Esses diversos trabalhos feitos em cima dão tonalidades, sensações e camadas para os significados abertos dos cantos e das poesias”, pontua.

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Ao lado de Charles Tixier (Charlie e os Marretas), que assina a produção musical do álbum Oyá Tempo, Luiza reforça a atmosfera eletrônica e atualiza a ponte entre tradição e contemporaneidade em sua nova sonoridade. Até o formato no palco é diferente e acompanhada apenas por Charles na bateria eletrônica cria um trip-hop em diálogo direto com a música brasileira. “Eu gosto muito de rap. Ouvi muito Travis Scott durante o processo do álbum”, conta Charles ao Hypeness. Ele afirma que Luiza também curte o gênero e por isso, traz a técnica “spoken word” através de uma série de poesias elaboradas para uma performance sobre bidimensionalidade.

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Com tantas inovações é admirável o que uma artista independente é capaz de fazer hoje no Brasil sem gastar muito. Através de parcerias é possível chegar num resultado tão satisfatório quanto o de uma superprodução. Luiza nos convida a conhecer o site que acompanha o projeto, criado pelo artista visual Dedos (Rafael Trabasso), ilustrando as oito faixas e as oito dimensões do disco. “O portal cria uma atmosfera e fala do tempo de uma forma mais etérea que o álbum”, antecipa. Navegue por todas as camadas neste link.

E as surpresas não param por aqui. Antes de assistir ao álbum visual “Oyá Tempo” aqui vão outras curiosidades: 1. O filme é o trabalho de estreia da produtora independente “Filmes da Diaba”. 2. O roteiro retrata uma atmosfera sombria e a relação de um jovem casal representados pela cantora Nina Oliveira e o rapper Diggão (Rodrigo S.) 3. Oyá é uma divindade feminina africana, também conhecida como Iansã, identificada com a comunicação, a ventania e a tempestade. Preparados para experiência dentro do cinema e da música?

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Todas as fotos: Reprodução

Via Hypeness

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