Verão do amor: os 50 anos do auge da psicodelia e do movimento hippie

Se hoje referir-se a algo como sendo “psicodélico” pode parecer um tanto genérico e vazio (despido de qualquer sentido crítico ou subversivo, como somente um slogan publicitário e colorido), há exatos 50 anos o efeito era oposto, e a psicodelia surgia como o sopro de um vento renovador não só para o rock da década de 1960, como para a juventude e, nos mais ambiciosos sonhos da época, até mesmo para o mundo e seu futuro.

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Em meados de 1967 a ala conservadora da humanidade se pôs em escândalo diante das centenas de milhares de jovens que tomaram as ruas do ocidente em busca de liberdade e sonho, com flores no cabelo e ácido na cabeça, especialmente na cidade de São Francisco, na Califórnia, formando o que ficou conhecido como Verão do amor. Era o auge do que genericamente é hoje reconhecido como a cultura psicodélica, que completa enfim 50 anos.

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Os jovens nas ruas de São Francisco em meados de 1967

Forjado essencialmente a partir da popularização do uso de drogas alucinógenas de efeito psicológico como a mescalina, o cogumelo e principalmente o LSD ao longo da década de 1960, a psicodelia foi vivenciada como bem mais do que simplesmente uma colorida estética sonora ou gráfica. Para a juventude de então, a experiência psicodélica oferecia uma nova maneira de compreender o mundo e viver a vida.

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Rejeitar o status quo, e encaminhar uma vida pelo amor livre, a comunhão com a natureza, o espírito comunitário, longe dos preceitos do capitalismo e da guerra, e devidamente decorada pelas imagens e sons das experiências psicodélicas – afirmadas na cultura geral como uma tentativa de reproduzir os efeitos que as drogas alucinógenas provocavam – era o espírito que moldava a ideologia por trás dos hippies que protagonizaram o tal verão de 1967.

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É preciso um sem fim de elementos e acontecimentos que, aleatoriamente ou não, se combinam no tempo e no espaço para que um fenômeno social e cultural como a psicodelia e o movimento hippie (dois irmãos culturais siameses, inseparáveis) aconteça. Após o fim da segunda guerra mundial, a juventude de então, plena de razão, rejeitava o poder que, afinal, havia recentemente chegado perigosamente perto de acabar com o mundo.

Drop Acid Not BombsAnti-War Moratorium, San FranciscoNovember 16, 1969 sheet 468 frame 32

“Tome ácido, não jogue bombas” 

Em meados dos anos 1950, a geração Beat, movimento literário ocorrido nos EUA e liderado por nomes como Allen Ginsberg, William S. Burroughs, Jack Kerouac e Neal Cassady, passou a escrever sobre uma outra América que não aquela do velho e capitalista sonho americano. Do ponto de vista de uma verdadeira subcultura – marginal e crítica ao modelo comportamental de então -, os beats escreviam sobre o uso de drogas como meio de se expandir a consciência em uma afirmação de identidade. Esse pode ser visto como um ponto fundador do que viria a se tornar o momento hippie e a psicodelia – de certa forma, os beats se transmutaram em hippies ao longo da década seguinte.

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Os escritores beats Allen Ginsberg e Jack Kerouac, ainda no final dos anos 1950 

Em uma dessas operações históricas sincrônicas, ao mesmo tempo o LSD – que havia sido forjado pelo químico suíço Albert Hofmann em 1938, tendo suas propriedades psicodélicas descobertas por ele em 1943 – passou a ser utilizado, não só por médicos como pela própria CIA como um tratamento experimental capaz de combater doenças mentais e estudar a psique humana. Assim se popularizava tanto o uso dessa droga em seu sentido expansivo e crítico quanto o questionamento do establishment político e cultural e o desejo da criação de um novo mundo e futuro enquanto elementos essenciais do espírito de uma época.

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Albert Hofmann, o pai do LSD

Outro elemento importante dessa conjunção foi a Guerra do Vietnã. Em nome de um abstrato combate à expansão do comunismo, milhares de jovens acabaram absurdamente mortos no campo de batalha. Especialmente, porém, o Vietnã foi um estopim cultural por ter utilizado não um exército americano profissional, mas sim, tropas formadas por jovens comuns – em sua maioria imigrantes, latinos e negros – recrutados das cidades americanas direto para a sanguinária selva asiática.

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Jovem soldado em campo de batalha no Vietnã

Os próprios jovens compreenderam que teria de partir deles a força para resistir à guerra, e se opor ao sistema que fabricava conflitos por causas escusas e os enviava para o outro lado do mundo a fim de morrer por algo em que não acreditavam.

Vietnam War Protests. Andy Blunden,

“Faça amor, não faça guerra”

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O poeta Allen Ginsberg, já hippie, dançando em São Francisco no Verão do amor 

Foi nesse conturbado contexto que o uso do LSD se tornou ao mesmo tempo válvula de escape e combustível para que um novo mundo pudesse surgir. Assim, nomes como o psicólogo Timothy Leary, o escritor Aldous Huxley (autor de clássicos como As Portas da Percepção e Admirável Mundo Novo) e o escritor Ken Kesey e seu grupo de hippies, os Merry Pranksters (que viajam os EUA dentro de um ônibus colorido movido a LSD e dirigido pelo poeta beat Neal Cassidy, gastando o dinheiro que Kesey ganhou com sucesso de seu livro Um Estranho no Ninho) passaram a ocupar a vanguarda do pensamento dos jovens, sedentos por liberdade, como gurus do ácido.

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Os Merry Pranksters em seu psicodélico ônibus colorido

Leary e Kesey acreditavam no LSD como um terapêutico meio de se expandir a mente, abandonar o “velho mundo”, conhecer a própria verdade e encontrar o amor total – para, assim, se fundar uma nova maneira de ser e estar no mundo.

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Acima, Ken Kesey, autor de Um Estranho no Ninho; abaixo, Neal Cassady e Timothy Leary dentro do ônibus

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No meio do ano de 1967, portanto, o movimento hippie e a estética psicodélica eram como um vulcão esfumaçado prestes a entrar em erupção. E o início enfim dessa explosão – em um dos momentos-chave da própria cultura ocidental – se deu em 01 de junho de 1967, quando os Beatles lançaram seu mais icônico trabalho (e talvez o mais importante disco da história do rock): Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

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Os Beatles em suas indumentárias psicodélicas, na festa de lançamento de Sgt. Pepper’s

Se Pepper’s sugere o espírito e a força psicodélica, a sonoridade das bandas que viriam a surgir dentro intensificava profundamente a tal tentativa de “simular” uma viagem de ácido através da música. Instrumentos cheios de efeitos, canções longas estruturadas de forma não usual, extensos trechos instrumentais e orquestrações até então estranhas para a música pop – com instrumentos exóticos, mistura de estruturas e instrumentos eruditos com o rock, influência da música oriental, além de temáticas e letras reflexivas, místicas, abstratas e libertárias, passaram a proliferar em toca discos, palcos e rádios pelo mundo.

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Nas artes gráficas que estampavam capas de discos, roupas e cartazes, o colorido intenso e a sucessão de imagens cheias de simbologia (também em sincronia com o repertório psicológico e alucinógeno sugerido pelo LSD) tornaram-se os principais motivos a adornarem os olhos juvenis.

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Acima, capas de discos do Cream e do The 13th Floor Elevators; abaixo, capas de Jimi Hendrix e Pink Floyd

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No Brasil, o que ficou diretamente identificado como hippie na cultura aconteceria alguns anos depois – como é o caso dos Novos Baianos ou dos Secos & Molhados. O Tropicalismo, porém, se deu em perfeito timing com a vanguarda do resto do mundo, e pôde representar, em pleno 1967, a psicodelia brasileira (com as devidas especificidades sonoras, rítmicas, estilísticas e temáticas que fizerem desse movimento algo tão especial no cenário musical mundial).

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Jorge Ben, Caetano, Gil, Rita Lee, Gal Costa, Sérgio Dias e Arnaldo Baptista

Ainda que distante dos intensos holofotes dos EUA ou da Inglaterra, o fato é que Os Mutantes são grandes representantes da psicodelia por aqui, seguindo até hoje como uma das melhores e mais reconhecidas bandas do gênero no mundo. A banda Ave Sangria e o disco Paêbirú (de Zé Ramalho e Lula Cortês) são outros excelentes exemplos da psicodelia em verde e amarelo.

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Caetano e Gil

Quinze dias depois do lançamento de Pepper’s, o festival de Monterey (o primeiro dos grandes festivais do fim da década de 1960), realizado na Califórnia entre 16 e 18 de junho de 1967, culminou por ser a erupção total do tal sentimento psicodélico – e depois de Monterey, a juventude jamais seria a mesma.

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O cartaz do festival de Monterey, num perfeito exemplo da estética gráfica psicodélica da época

Em um mesmo palco, sucederam-se a primeira grande apresentação de Jimi Hendrix (na qual tocou fogo em sua guitarra), de Janis Joplin, junto de nomes como Jefferson Airplane, The Mamas & The Papas e The Greateful Dead (além de figurões como The Who, The Animals e Otis Reading) e a música oriental do mestre indiano Ravi Shankar.

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Acima, Hendrix colocando fogo em sua guitarra em Monterey; abaixo, Janis Joplin em ação no palco do festival

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Concretizava-se assim o espírito que parecia sugerido no ar. O verão de 1967 tinha enfim cara, vestimenta, comportamento, sonoridade e espírito. Cerca de 90 mil pessoas compareceram a Monterey.

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Brian Jones, dos Rolling Stones, em meio à multidão de Monterey

E a multidão de hippies não iria se dissipar. Verdadeiros êxodos juvenis ocorreram depois do festival, e São Francisco se tornou a capital da contracultura e do Verão do Amor quando cerca de 100 mil jovens migraram para a cidade, em especial para a região de Haight-Ashbury, espécie de epicentro do movimento. A utopia tinha enfim seu cenário.

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A icônica esquina entre Ashbury e Haight, em São Francisco

A força da juventude, até então afirmada em sua virtude comercial, ganhava contornos políticos, objetivamente se opondo à maneira como o poder, a política e a economia conduzia a vida das pessoas, e exigindo com urgência uma mudança drástica, em nome da paz, do amor e do coletivo – e essas seguem sendo as caríssimas heranças que o movimento nos oferece até hoje.

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Jovens marcham por São Francisco

A cidade, no entanto, não tinha estrutura para receber tantos jovens, que ocuparam praças e ruas, consumando suas liberdades ideológicas e consumindo drogas ao ar livre. Aos poucos, a inclemência da realidade se impôs, a Guerra do Vietnã não acabou, o poder não foi tomado, e para os que aderiram ao movimento crendo que mudar o mundo era algo tão simples quanto ingerir uma substância química, era o início do fim, o ocaso de um dos mais importantes momentos culturais do século.

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Acima, jovens em uma praça da cidade; abaixo, George Harrison entre hippies no Verão do amor, em São Francisco

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Se alguns pontos específicos que o psicodelismo e os hippies defendiam como meio de se fazer a revolução hoje parecem anacrônicos e ingênuos, o desejo propriamente de entrar em comunhões coletivas, em sincronia com a natureza, o amor, as diferentes identidades e fora das grandes estruturas econômicas segue em voga como forças de rebeldia fundamentais.

Human Be-In

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Timothy Leary em São Francisco; abaixo, um protesto na cidade contra o recrutamento para a guerra

O momento psicodélico e o movimento hippie são o último grande evento cultural a de fato, aberta e concretamente lutar pela construção de um novo mundo, mais livre e jovem. Esse sentimento, que alcançou seu estopim há 50 anos, permanece – como o motor incontornável da indignação e do sonho utópico de liberdade que tem de sempre mover as cores da juventude, em qualquer época ou lugar.

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© fotos: divulgação/acervo/Getty Images

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Via Hypeness

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