Fotógrafa documenta a relação de homossexuais com o islamismo em série poderosa

Há sete países muçulmanos que consideram o sexo entre pessoas homossexuais um crime passível de pena capital. Mas, por mais que se tente reprimir, a homossexualidade está presente em países islamitas ou em qualquer outro.

Curiosa para saber como os muçulmanos gays lidam com a leitura homofóbica que se costuma fazer do Alcorão, a fotógrafa Lia Darjes entrevistou e capturou imagens de homossexuais praticantes do islamismo. No início, ela chegou a duvidar que era possível conciliar as duas coisas.

Após trabalhar no projeto entre 2013 e 2015, conhecendo muçulmanos gays que moram nos Estados Unidos, Canadá e países da Europa ocidental, Lia mudou de ideia. Ela aprendeu que há muita diversidade de pensamento entre os praticantes do Islã, assim como acontece em qualquer religião, e divulgou suas histórias para derrubar os estereótipos.

El-Farouk e o marido, Troy, de Toronto, Canadá

Onde eu estou hoje não é necessariamente onde comecei. E eu poderia te contar onde eu estou hoje e iria te soar a um lugar feliz. Mas a jornada para esse lugar não tem sido fácil. Eu comecei com a noção de que era pecado [ser gay] e de que aqueles que o faziam era problemáticos, na melhor das hipóteses. Mas isso não parecia certo na larga construção do Alcorão e do Profeta que eu acredita ser verdadeiro e sobre o qual fui, na verdade, ensinado. Eu não acredito que a homossexualidade seja um pecado porque sexualidade no Islão não é pecado. Sexualidade é algo que Deus te deu. E no verso 49.13, Allah diz: ‘Eu criei você para diferentes nações e tribos e vocês devem se conhecer e aprender uns com os outros’. Eu apenas vejo a comunidade queer como uma dessas nações ou tribos”.

Ludovic, morador de Paris

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Em 2012, depois de não encontrar um único imame [líder religioso muçulmano] disposto a enterrar um transexual da nossa religião, fundei uma mesquita aberta a todos em Paris. As reações foram veementes. Ser muçulmano, árabe e gay, membro de vários grupos minoritários, abriu meus olhos: As minorias estão sendo especialmente discriminadas durante esses tempos de crise econômica. Precisamos saber mais sobre o Islã e entender quem nós somos para realmente combater a homofobia”.

Joey, morador de Los Angeles

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Eu era um ateu convicto até encontrar uma cópia do livro The Taqwacores, de Michael Muhammad Knight, que fala sobre um movimento punk muçulmano que era fictício mas meio que se tornou real após a publicação. Eu comprei, li em poucos dias e abri meus olhos para muito mais do que a religião. De certa forma, eu era muito ortodoxo quando analisava a comunidade LGBT e o Islã. A primeira vista, claramente não é ok que as duas coisas se misturem. Mas quando você lê outras fontes, outras versões do Alcorão e outros hádices [histórias sobre a vida de Maomé], fica claro que é tudo uma questão de interpretação

Samira, moradora de Toronto

samira

“Eu venho de um país onde ser gay é motivo para pena de morte. Em 1979, quando a Revolução Iraniana começou, minha família emigrou para o Canadá, onde eu cresci sem tanto contato com a religião. Talvez seja por isso que eu nunca tive que sair do armário para meus pais, acho que eles sempre soberam que eu era lésbica. Depois do 11 de setembro, eu virei muçulmana de repente. Não porque eu estava agindo diferente, mas por que as pessoas me viam de outra forma. Só de ver meu nome elas mudavam de atitude. Por que elas não entendem que há várias vertentes do islamismo em diferentes países, diferentes tradições, diferentes formas? Por que elas aceitam isso para o cristianismo ou o judaísmo, mas não para o islamismo?”

Amin, morador de Los Angeles

amin

Eu me vejo no meio de duas frentes – às vezes brigo dentro da comunidade muçulmana por tolerância em relação às pessoas LGBT, às vezes confronto gays e outras pessoas sobre a crescente islamofobia nos Estados Unidos. Me sinto obrigado a educar as pessoas dos dois lados. Ao mesmo tempo, não sinto como se precisasse ser aceito por ninguém. Não sinto nenhuma turbulência interior por causa dos vários componentes da minha identidade. Não fico necessariamente feliz com a possibilidade de haver uma mesquita para gays. Se houvesse uma grande mesquita e as pessoas fossem orar juntas, eu continuaria me sentindo desconfortável – gay ou não. Mas acho que elas deveriam ter o direito de fazer isso. É estranho? Parece que eu estou em negação, não é?

Saadyia, moradora de Toronto

saadyia

Ser lésbica e muçulmana, para mim, significa que eu posso ser quem Alá quis que eu fosse. E, para mim, isso significa ser uma mulher educada, compassiva, atenciosa e amorosa. Eu achava que isso era algo negativo, mas, conforme fui aprendendo mais sobre mim e a comunidade LGBT, aprendi que somos do mesmo jeito de todo mundo. Temos as mesmas necessidades de todo mundo. E os mesmos direitos de todo mundo também.”

Daayiee, morador de Washington

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Como um ímane inclusivo que também é gay, eu entendo o turbilhão pelo que passam os muçulmanos homossexuais. Quando me converti 34 anos atrás, eu ainda não falava árabe. Eu estudava na Universidade de Pequim e a primeira versão do Alcorão que li estava em mandarim. Foi uma bênção. Mas conhecer o Islã no Oriente Médio e viver lá para continuar a formar minha visão de que o Islã não é monolítico foi necessário. Não é só uma religião ou uma crença, mas uma formulação que depende da cultura de quem entra. Alá demonstra que há grande diversidade desde a Criação. A questão é se nós respeitamos isso“.

Todas as fotos © Lia Darjes

Acesse a página do projeto Been Queer, Feeling Muslim para ler mais relatos.

Via Hypeness

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