#DáPraFazer se despede no Recreio com Tásia Reis, Hermes e Renato e a emocionante final da Batalha do Passinho

Tristeza não tem fim. Festival lindão que durante quatro sábados mistura zilhões de atrações maravilhosas das mais distintas vertentes culturais em quatro pontos descentralizados do Rio de Janeiro totalmente de graça, sim. Foi com uma pontinha de saudade antecipada que parti até o Recreio, extremo oeste do litoral carioca, para a derradeira cobertura do #DáPraFazer.

Badernistas em série

Mas este não será um relato lamurioso, prometo. Nem poderia ser, já que a minha primeira visão ao desembarcar no Posto 12 foi uma roda de conversa com os caras do Hermes e Renato. Puta emoção, meo! Marco Antônio Alves, Felipe Torres, Adriano Pereira e Franco Fanti podiam se sentir em casa no Festival Rider #DáPraFazer. Afinal, amigos de infância que saíram do nada para levar esquetes excêntricas ao imaginário coletivo de uma geração inteira só podem ser considerados fazedores dos bons.

“Sempre houve essa inquietude. A gente nunca se contentou em continuar fazendo a mesma coisa durante muito tempo. Acho que a gente se cansa bem mais rápido que o próprio público”, analisou Felipe, imortalizado no papel de Boça, enquanto tomava uma cervejinha sem leite nem pera na beira da praia. O papo foi interrompido por alguns instantes por uma leve impressão de que Marco Antônio estava se afogando ali perto. Alarme falso.

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Perguntei a Adriano, o eterno Joselito, se não enche o saco ser sempre lembrado pelos mesmos personagens – mais ou menos como estou fazendo aqui. Ele mostrou que sabe brincar. “Não incomoda, porque a gente trabalha para ter esse reconhecimento mesmo. Hoje em dia tem muito negócio de foto, de grupo no Whatsapp, gente pedindo para mandar áudio para não sei quem… mas faço numa boa.” A trupe do Hermes e Renato segue produzindo em várias frentes: estão em cartaz nos teatros com “Uma Tentativa de Show” e alimentam o canal do YouTube com esquetes clássicas, entre outras fazeções “esculhambradas”. Claro que pedi uma foto para esfregar na cara dos amigos antes de dar sequência à cobertura. E neste segundo percebo que esqueci de pagar minha parte da conta. Joselitei.

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O bom humor deu a tônica do início de tarde no Recreio dos Bandeirantes. O solzinho que mandava a ameaça de chuva para longe casou perfeitamente com a apresentação da banda Biltre. Os rapazes mostraram seu som modernoso, costurando batidas eletrônicas e metais tradicionais enquanto as letras falam de coisas como um passeio frustrado até a Ilha de Paquetá ou a sensação de receber notícias ruins enquanto se almoça um pastel no chinês. É estranho, mas funciona. Um cover do hino fanfa-brega “Piranha”, de Alípio Martins, fez todo mundo arriscar umas dancinhas inusitadas, tanto no palco quanto na plateia. Good vibes praianas.

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Finais felizes

Um dos grandes momentos do sábado seria realizado a poucos metros dali. A final da Batalha do Passinho reuniu os 16 classificados das semanas anteriores no esquema de mata-mata: a cada confronto, só um seguia em frente. Como de costume, a disputa ferrenha ficou só na dança mesmo. Os duelos eram repletos de gargalhadas, incentivos e muita, mas muita agilidade nas pernas. Uma pequena multidão se formou para ver os jovens dançarinos exibirem movimentos cada vez mais espetaculares enquanto o DJ Seduty emendava um pancadão no outro. O passinho é de cair o queixo.

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De repente, a alegria descompromissada deu lugar a uma torrente de emoções. No instante em que garantiu sua vaga na grande final, Albert Oliveira, o PQD, desatou a chorar. Ato contínuo, foi acompanhado no pranto por amigos, jurados, e até pelo rival da final, Sid. Lágrimas e abraços apertados no meio da pista de dança, um momento de arrepiar. Pai de uma criança de cinco anos, PQD desabou por saber que a participação na final lhe garantiria ao menos quinhentos reais, prêmio destinado ao vice-campeão. “Chorei porque estou passando por dificuldades, esse dinheiro vai fazer muita diferença na minha vida. O passinho é tudo para mim, nunca vou me esquecer desse dia”, me contou o dançarino de 23 anos, ainda sem conseguir se conter.

O título foi para o rival e grande amigo Peterson Christopher, o Sid. Mesmo cansado após a maratona de batalhas, o jovem da Pavuna tirou umas piruetas ousadas da cartola para levantar público, jurados e levar para casa o prêmio de mil reais. O campeão também tem uma história bonita para contar. “Cada vitória minha eu dedico ao meu irmão, que me apresentou ao Passinho. Ele teve um câncer e não pode mais dançar, mas hoje estou aqui para honrar o nome dele”, declarou. Sid divide seu tempo entre a função de jovem aprendiz em uma rede de supermercados e as apresentações com o grupo Os Clássicos do Passinho. A grana do prêmio vai servir para tirar o primeiro passaporte: Sid tem viagem marcada para apresentar seu talento na França em julho. Voa, moleque!

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A outra disputa do dia foi realizada no palco principal e o resultado foi uma demonstração da força feminina. Atropelando a concorrência desde sua estreia em Madureira, Lili Santos derrotou Mozart MZ na finalíssima para se sagrar a grande campeã da Batalha de Rap do #DáPraFazer. Flow que vale um agrado daqueles nos bolsos: 10 mil reais, premiação sem precedentes nas rodas de todo o Brasil. Os pulos de alegria da paulista brabíssima eram mais do que justificados. Via internet, Lili ainda mandou um último recado: “Se as mina não subir, ninguém vai!”.

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Por falar em batalha, pouco depois pude acompanhar um debate bacana com fazedores das rodas locais. Júlio César da Costa, da Roda Cultural do Terreirão, comandou um bate-papo sobre os desafios enfrentados por essa galera que ocupa o espaço público com a livre manifestação da cultura hip-hop. Na sequência, uma batalha improvisada cheia de energia e força no gogó.

Outra ideia trocada em altíssimo nível foi o bate-papo sobre maternagem, convocado pelas minas do RAXA. A maravilhosa Hel Mother puxou a fila para falar das experiências de uma mãe em um mundo machista – apesar das constantes (e fofas) interrupções causadas por Dandara e Morena, filhas de Thayná Trindade e Amnah Assad, respectivamente. Gabriela Moura completou a escalação. As crianças, aliás, já esbanjavam simpatia desde cedo, participando da oficina de dança malemolentemente comandada por Sabrina Ginga.

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Forças da natureza

A tarde caía veloz e a sensação era de que o #DáPraFazer não podia se despedir em lugar melhor. Na beira do mar, brisa fresca soprando, as crianças brincando, os velhinhos passeando, os rapazes equilibrando a bola no ar. E, claro, música, muita música – o vigor de Baco Exu do Blues no Palcão, a sutileza de Gus e Vic num palquinho. Muita noite de sábado ainda pela frente.

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Avisto Rico de Souza, lenda viva do esporte brasileiro, convidado para conversar sobre seu filme, “Surfe é Coisa de Rico”, uma das atrações da noite no Cinemão. Furo fila para pegar uma palavrinha antes, perguntando de brincadeira que história é essa de fazedor se surfista tem tudo fama de vagabundo.

“É, ficou essa imagem mesmo. Mas a galera da praia faz muito. Um tem escolinha de surfe, o outro conserta pranchas… não tem essa de ficar parado. Vivemos a era dos fazedores – ainda mais no meio dessa crise toda. Nós, como todos os brasileiros, vamos nos virando nos 30. Por sorte, trabalhando com aquilo que amamos”, disse. Sorridente, Rico relembra sua própria trajetória de fazedor: pioneiro na profissionalização do surfe, criador da primeira escolinha da modalidade no Rio, idealizador de projetos de preservação do meio-ambiente nas praias da Zona Oeste e por aí vai. O cara, por mais contraditório que pareça, não sossega.

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De volta ao Palcão, burburinho crescente no ar, galera colando na grade, olhinhos vidrados. Era chegada a vez de Tásia Reis. Cabelos majestosos, presença magnética, voz delicada. Em vinte segundos de som você já entende porque a paulista de Jacareí é um fenômeno do rap nacional. Mas nada te prepara para o turbilhão que vem a seguir. Quem viu, viu. Esperei pacientemente enquanto umas dúzias de fãs pediam fotos e autógrafos pós-show para perguntar a Tásia o porquê deste fascínio todo.

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A arte precisa muito de verdade. E eu acredito muito na arte que faço. Quando eu tô escrevendo ou cantando, quero dar sempre o meu melhor. Quero atingir as pessoas e ser atingida também”, esclareceu a cantora enquanto saboreava uvas verdes no camarim. Perguntei ainda a respeito da responsabilidade que é ser vista como exemplo para muitas fãs, especialmente para jovens negras. “O que fez essas meninas se enxergarem em mim é quem eu sou. Então acho que se eu continuar desse jeito, seguindo as coisas em que acredito, vai dar tudo certo. Acontece que eu não sou obrigada a nada, como diz aquele meme. A usar uma coisa que eu não tô a fim, a concordar com a política do país, a ser assediada na rua… a nada mesmo. Isso faz parte da minha identidade, fortalece a minha autoestima. É uma mensagem que eu tento passar”.

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Não sabendo que era impossível…

Chegamos aos finalmentes. Após o show da Tásia, uma sequência matadora de DJs deixou a galera que tava colada no Palcão ainda mais alucinada, melhor nem entrar em detalhes. Grafiteiros tiravam fotos com suas obras prontas, a galera do Cine Oeste exibia seus filmes, ambulantes vendiam seus últimos latões, milhos e churros, um cara de maiô cavado colorido dançava… oi? Quem é esse cara? Ah, alongamento Bunytos de Corpo circulando com a Bananobike, mais uma fazeção louca comandada por Dioclau Serrano, o biltre da Banda Biltre, do Minha Luz é de LED e sabe-se lá quantas outras iniciativas.

“Já tô com saudade do #DáPraFazer, cara. Aprendi muita coisa, conheci muita gente, altas conexões com os outros fazedores. Troquei com uma galera, fiz lobby, fiz amizade. A impressão é de que vai ter continuidade. Não é uma coisa que me chamaram, cheguei, fiz e vou embora. Vem mais coisa. O rolê está apresentado“, sentenciou Dioclau, antes de sair correndo para fazer alguma outra coisa porque ele está sempre fazendo alguma coisa.

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Ainda dava tempo de trocar uma ideia com as duas responsáveis por todo aquele caos. Amnah Assad, a gaúcha palestina agora autoproclamada carioca que transborda intensidade em cada uma das frases que despeja ininterruptamente sobre o interlocutor, e Lara Azevedo, a mato-grossense paulista londrina carioca que se comunica com serenidade interiorana mas resolve mil questões ao mesmo tempo com agilidade urbaníssima. São elas as sócias da NOIX, parceira da Rider na concepção e desenvolvimento do #DáPraFazer.

Foi muito foda. É uma cena que às vezes fica dispersa e a gente conseguiu juntar todo mundo para mostrar que isso existe. A gente sempre quis fazer um negócio verdadeiro mesmo, e a galera da rua comprou essa ideia”, começou Amnah. “A gente criou um festival que tem um esqueleto, mas a alma é local. Foi assim em Caxias, em Madureira, em todos. Você viveu os festivais, né. Acho que você sentiu uma energia, uma batida, uma galera, uma luz…”. Senti, Lara. O negócio foi intenso.

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O papo correu por mais um tempo, com as duas relembrando eufóricas os melhores momentos dos últimos quatro sábados e exibindo os sorrisos indisfarçáveis de quem sabe que o trabalho valeu a pena. Reconheço essa expressão de muitos rostos que conheci nessas semanas de cobertura. Da galera que rala da Gamboa à Madureira, que serve de inspiração da Baixada ao Recreio. Foi bacana descobrir tanta gente fazendo coisa boa por aí. E melhor ainda sair com a sensação de que #DáPraFazer muito mais.

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Todas as fotos © I Hate Flash

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Via Hypeness

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