A correria da Baixada, a força das mulheres, a dança no temporal: teve de tudo no terceiro #DáPraFazer

Começo com um mea-culpa. Admito que, como tantos outros cariocas da capital, nunca prestei muita atenção à produção cultural da Baixada Fluminense. A real é que a gente pouco ouve falar do que rola ali do lado, na enorme mancha urbana que abriga quase quatro milhões de pessoas. Minha ignorância finalmente foi superada no último sábado, quando fui até Duque de Caxias para conferir o terceiro dia do Festival Rider #DáPraFazer. Lá, atestei com meus próprios olhos: a Baixada fervilha. E quem não presta atenção tá dando mole.

Primeiro

“A Baixada é muito conhecida por páginas policiais. Mas a gente tem muito mais do que isso. Olha ao redor que coisa linda, toda essa galera é da Baixada, há uma cultura pulsante. Essa produção é importante até mesmo para resgatar o orgulho de quem é daqui. A ideia que se tinha é que a Baixada só servia para mandar porteiro e empregada para a Zona Sul do Rio. E essa não é a realidade. Aqui tem muita coisa boa”, me adiantou João Carpalhau.

João é um dos idealizadores da Capa Comics, um dos grandes exemplos de produção cultural 100% made in BXD. O coletivo imprime a marca da região nas histórias em quadrinhos, seja através de personagens, narrativas ou idiossincrasias em geral.

Olivetti 7
Claro que teve passinho (Foto: Renan Olivetti)

Olivetti 1
Alô, Baixada! (Foto: Renan Olivetti)

O bate-papo de João com o público foi uma atrações inaugurais desta edição do #DáPraFazer, realizada no Soma Hub, espaço cultural localizado no Jardim 25 de Agosto. Como de costume, o evento recebeu dezenas de convidados que se misturaram em oficinas, rodas de conversa, exibições, apresentações e o que mais você puder imaginar. Em comum, a veia de fazedor, a predisposição para sair do campo das ideias e realizar na prática.

Tentando resistir à tentação de comprar uns discos da Alive Pop Up ou umas roupas do Brechó Gambiarra, segui o conselho do João e olhei ao redor. A ideia era correr atrás de gente que pudesse me contar mais sobre o jeito de fazer da Baixada. Foi quando conheci Tales Sousa, um dos fotógrafos do coletivo Cena BXD. “Ser daqui é passar por uma correria que muita gente não passa. Tudo com dinheiro contado, indo para um trampo de trem para economizar. É saber que a dificuldade não importa. Dá teu jeito, vai lá e faz“.

Olivetti 2
Made in Baixada (Foto: Renan Olivetti)

Essa tenacidade criativa é exatamente um dos mandamentos do #DáPraFazer, pensei. Heraldo HB, do Mate com Angu, confirmou: “Fazedor e Baixada Fluminense são quase sinônimos“. O Mate com Angu é um cineclube que exibe e produz cinema há quinze anos, juntando uma galera que deseja discutir e fazer a diferença na cena local enquanto toma umas cervejinhas porque ninguém é de ferro. E se você está achando esse papo todo muito ufanista, saiba que não tem ninguém fechando os olhos para os muitos problemas da região.

“A gente gosta, mas também sabe que aqui é uma merda em vários aspectos. A elite política e econômica da região é parasitária, muitas vezes assassina, praticamente feudal. O que me dá prazer é saber que aqui é um caldeirão cultural. Até por ter recebido gente do Brasil e do mundo inteiro, é um lugar muito rico no sentido de construção humana mesmo. A Baixada é foda“, conclui. Depois de um sábado inteiro me deliciando com causos e ritmos e lutas e realizações da galera de lá, não pude deixar de concordar.

Padilha 1
Muralzão daqueles (Foto: Diego Padilha)

Ação e inspiração feminina

O #DáPraFazer respira cena local, mas agrega elementos das ruas do Brasil inteiro. Um dos pontos altos do sábado se deu na conexão Rio-SP, quando a atriz carioca Luellem de Castro encontrou a poeta paulistana Mel Duarte para falar sobre mulheres negras. O papo foi convocado pelas minas do RAXA, braço 100% feminista do festival. Seguindo as palavras das próprias, o foco do coletivo é a promoção de debates, o combate à opressão, a criação de um espaço de confiabilidade e de trocas de saberes.

Olivetti 4
Vai encarar o RAXA? (Foto: Renan Olivetti)

Diante de uma sala lotada, Mel e Luellem trocaram ideias e vivências sobre feminismo, empoderamento, representatividade, machismo, racismo e tantos outros tópicos fundamentais. O papo rolou fluido por horas e horas, com o microfone circulando livremente entre público e convidadas. Em um dos momentos mais emocionantes e descontraídos do dia, a mãe da mediadora Ana Paula Teixeira tomou a palavra para elogiar a iniciativa das meninas negras da nova geração. Chuva de aplausos.

Olivetti 3
Prosa da boa (Foto: Renan Olivetti)

Mel Duarte é conhecida por causar grande impacto com sua poesia. Menina Melanina e Verdade Seja Dita, por exemplo, tornaram-se respectivamente hinos sobre autoestima e combate à cultura do estupro. A identificação do público é imediata. “Às vezes a gente não percebe o quanto o que estamos falando pode ser importante para o outro. Meninas chegam para mim e falam que a minha poesia fez alguma coisa nelas mudar. E não fazem ideia do quanto isso me fortalece, porque aí percebo que a mensagem está chegando, que tem gente absorvendo. Fico muito feliz em participar de eventos como esse, de escutar o que o público pensa sobre esses temas também. Valeu demais.”

Padilha 2
Mel com a palavra (Foto: Diego Padilha)

A voz das minas seguiu ecoando pelo sábado de Caxias. Classificada para a final da Batalha de Rima, Lili se juntou a Mel, Luellem e várias outras em um sarau improvisado que arrepiou o #DáPraFazer. Um pouco antes, mulheres ligadas ao cinema discutiram seu papel no audiovisual fluminense. “O movimento feminista fortalece a emancipação das mulheres em qualquer atividade. No cinema não é diferente. Quanto mais as mulheres enfrentam esta estrutura hegemônica, mais elas conseguem realizar e distribuir seus projetos. Muitas vezes os curadores tacham o nosso cinema como ‘de mulher’, mas não é assim. A minha ética é feminista, mas meu cinema não é ‘feminino’ – é múltiplo, transborda várias questões“, me explicou a nilopolitana Catu Rizo.

Olivetti 5
Ninguém segura a Lili (Foto: Renan Olivetti)

Padilha 3
Sarau maravilhoso: deu pra fazer (Foto: Diego Padilha)

Deixa molhar

De repente, uma tempestade quase bíblica desabou sobre Caxias, impossibilitando as atividades do cinema a céu aberto. Uma pena, porque a exibição de “O Som do Tempo”, filme de Arthur Moura que narra a trajetória do rap nacional, estava lindona. Mas fora das telas o rap comeu solto mesmo debaixo da chuva, com o DJ Kajaman botando uma multidão encharcada para dançar. Fazeção a qualquer custo.

Tanta coisa aconteceu que ainda não contei da programação do palco principal. Por lá, enquanto o sol ainda batia forte, os caras do Beach Combers mostraram seu som que definem como surf garage psicodélico instrumental e eu jamais poderia explicar melhor. Só posso acrescentar que eles usam umas roupinhas bem bacanas.

Olivetti 6
Surfin’ BXD (Foto: Renan Olivetti)

Depois foi a vez do Kosmo Coletivo Urbano, fazedores da Baixada que também fazem um som instrumental maravilhoso pelas ruas da megalópole. “É fundamental ser livre para mostrar a sua arte. A gente faz arte para quem não tem oportunidade e mora na rua, para quem está passando por ali no momento, para gente de todas as classes, cores, crenças, para todo mundo”, defende o saxofonista Luis Queiroz, que durante o show instigou o público a subir no palco e improvisar umas rimas. Provocação muito bem atendida e realizada, registre-se.

Padilha 4
Le rap c’est moi (Foto: Diego Padilha)

Padilha 9
Chove mais que tá pouco (Foto: Diego Padilha)

A galera se esbaldou no Palcão em crescimento exponencial de gente e energia durante o sábado inteiro. Veio o temporal e ninguém arredou pé, todo mundo louco para ver a estrela da noite: Rincon Sapiência, o ponta de lança que parte para o ataque com seu verso livre. Uma apresentação catártica, seguida pelo Heavy Baile de Leo Justi, pelas minas brabíssimas que formam ABRONCA, por uma sequência de DJs e sons e êxtase que só quem viveu sabe. Baixada, não tem chuva, cansaço ou obstáculo qualquer que te pare! Antes tarde do que nunca, aprendi a lição.

Padilha 5
Rincon, MC acima da média (Foto: Diego Padilha)

Padilha 6
Espreme que cabe mais (Foto: Diego Padilha)

Padilha 7
ABRONCA, em caixa alta mesmo (Foto: Diego Padilha)

Padilha 8
Foi bonito (Foto: Diego Padilha)

Fique ligado no próximo evento #DáPraFazer que rola no sábado 8/04, no Soma HUB. Confirme presença e saiba mais detalhes no evento do Facebook.

selo artigo patrocinado

Comentários

Via Hypeness

0 I like it
0 I don't like it