Festival #DáPraFazer faz Madureira pulsar com arte, música boa e muita inspiração

Após o sucesso estrondoso do sábado inaugural do Festival Rider #DáPraFazer, não pude deixar de me sentir apreensivo pela galera da produção. Como eles iriam proceder para manter o nível nas semanas seguintes? Que barra! Mas meu ceticismo foi embora assim que cheguei para a cobertura do segundo evento. Claro que, além das incontáveis atrações que apontam para todas as direções, o #DáPraFazer tinha uma carta de ouro na manga: Madureira.

O caminho do bem

O bairro da Zona Norte do Rio, coração do subúrbio, casa da Portela e do Império Serrano, esteve longe de ser apenas o pano de fundo do festival. Foi protagonista, abraçando toda a trupe de forasteiros com seu caos, sua informalidade, sua vocação para a bagunça criativa.

Se o propósito do #DáPraFazer é reunir uma galera que se vira nos trinta para mudar a cara do Rio, o festival encontrou em Madureira um lar ideal. Especialmente naquele ponto específico, ao redor e sob o Viaduto Negrão de Lima – um dos principais espaços culturais a céu (quase) aberto da cidade, reduto do movimento negro carioca.

+ Bem perto de Oswaldo Cruz (Renan Olivetti/I Hate Flash)

E foi debaixo do viaduto que o negócio começou a ferver. Cebolinha e DJ Seduty voltaram a comandar a Batalha do Passinho, que nos três primeiros sábados de festival servem como classificatórias para a grande final no Recreio. Rodinha formada, bondes de diversos cantos da cidade apresentados, dançarinos afiadíssimos.

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Ahhh leleke leke leke leke (Renan Olivetti/I Hate Flash)

Além do talento da rapaziada, o que mais impressiona no passinho é o respeito entre todos os concorrentes e torcedores. Vaias, contestações e xingamentos, nem pensar. Ao fim de cada batalha, sorrisos e cumprimentos. Fair play em estado puro. Ninguém está ali para rivalizar, mas para se divertir, dançar e apoiar os amigos.

Foi o que me confirmou Yure, o grande vencedor da etapa de Madureira. “Eu moro na favela, né. Tem muito tráfico, essas coisas. Mas a dança me ajuda a não entrar nessa, assim como ajuda meus amigos do bonde. O passinho faz muita diferença na minha vida”, contou o rapaz de 16 anos. Morador do Mandela (em Manguinhos) e membro do Imperadores da Dança, o IDD, Yure já se apresentou na televisão, em teatros, e concilia o passinho com os estudos. Boa, moleque!

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Yure, do Mandela para o mundo (Wilmore Oliveira/Divulgação)

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Deu pra todo mundo dançar (Eduardo Magalhães/Divulgação)

O corre das minas

O #DáPraFazer não se limitou ao espaço sob o viaduto. Do outro lado da rua, a Void abrigou o Papo de Fazedor e o Palcão, onde aconteceriam os principais shows do sábado. Abrindo os trabalhos por ali, Djoser foi o anfitrião do Papo de Roda, onde debatia com convidados sobre o cenário das rodas culturais no Rio e no Brasil.

“Por mais que a gente tenha sete anos de movimento, a gente ainda sofre muita repressão. Sofre por uma falta de entendimento do que são essas ocupações urbanas com hip-hop. A ideia é falar sobre os últimos anos, quando ocorreu uma grande explosão que não foi planejada, e o que podemos fazer para os próximos”, explicou Djoser.

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Djoser, o cara do Papo de Roda (Renan Olivetti/I Hate Flash)

Trocar ideia é fundamental, mas claro que eles não ficariam só no papo. Também nos moldes de fases eliminatórias até a grande final no Recreio, a Batalha de MCs é um dos pontos altos de cada sábado do #DáPraFazer. O prêmio gordo fez crescer os olhos de todos os concorrentes: 10 mil reais. Mas o que mais chamou a atenção em Madureira foi outro fator: a ascensão feminina. Dos oito competidores, três eram mulheres – índice considerável para um ambiente tradicionalmente machista. E a cereja do bolo: as três mandaram bem demais e se classificaram para a reta final.

“Desde o princípio, a história do hip-hop está cheia de minas muito brabas, como nós. O que está acontecendo agora é que estamos tendo espaço e reconhecimento, estão se abrindo as portas que nunca deveriam ter sido fechadas”, avaliou Thai Flow, uma das vencedoras de sábado. Ao seu lado, Lili falou das dificuldades para se impor na cena. “A partir do momento em que uma mulher dá a cara a tapa, coloca o pé e mostra que para tirá-la daquele espaço vai ter que ganhar dela no argumento, os caras já ficam na defensiva. Aí tentam apelar para tirar a sua visibilidade”, contou a paulista, outra classificada, antes de correr para conferir de perto o vozeirão da britânica Jesuton.

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Thai Flow: mulheres no comando (Renan Olivetti/I Hate Flash)


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Jesuton maravilhosa (Renan Olivetti
/I Hate Flash)

Também teve papo reto feminino no terraço que abriga o coletivo Duto, do outro lado da praça. Subi os seis andares a tempo de ouvir as meninas do Amarévê, produtora que se dedica a ouvir e contar as histórias dos moradores do Complexo da Maré. Elas deram um show de simpatia e mostraram que são exemplo quando o assunto é iniciativa. Não deu nem para anotar a quantidade de projetos paralelos e cruzados tocados com pouca verba e muita transpiração por Karina, Jéssica, Mayara e Suzane. E olha que a mais velha delas tem só 25 anos.

“Começou quando decidimos resolver as questões que nos incomodavam. Tá faltando um cinema aqui? Então vamos fazer uma projeção, exibir um filme. Tá faltando cultura? Vamos montar uma festa, um campeonato. Até que decidimos seguir pelo caminho da comunicação para continuar fazendo coisas novas”, disse Mayara. “O que mais nos impulsiona é falar de representação. Ficamos indignadas com a forma que a Maré é sempre retratada na mídia e usamos essa indignação para contar outras histórias. Falar nós por nós mesmos”, complementou Jéssica. Fazedoras de mãos cheias.

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Duto no esquema (Renan Olivetti/I Hate Flash)

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Estilo é pra quem tem (Renan Olivetti/I Hate Flash)

O esporro que precede o baile

Em meio a tantas narrativas inspiradoras, o bairro visto do terraço não parecia mais apenas avenidas, trânsito, luzes, barulho. O furdunço de Madureira é multiplicação de gente e consequentemente de histórias, lutas, potencialidades. Quem é do subúrbio sabe que dá pra fazer, apesar de todas as dificuldades.

A tarde ia embora, o Cinemão estava pronto para receber uma programação lindona, a atmosfera no Duto era maravilhosa. Mas a fome também batia forte, hora de voltar às ruas. Encontrei um bom e velho podrão sob o viaduto. X-Tudo a dez reais, coca gelada, mesa amarela de plástico, música berrando em meus ouvidos. Madureira, te amo.

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Espetinho maroto (Renan Olivetti/I Hate Flash)

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Tem cerveja pra comemorar (Renan Olivetti/I Hate Flash)

A enorme aglomeração em frente à Void fez lembrar que um dos grandes momentos do sábado estava próximo. Uma Jam Session que reuniu fazedores de destaque do rap nacional, como BK, Djonga, Dughettu, Shock O Qxó e Ramonzin. Ainda tinha o pernambucano-bukowskiano Diomedes Chinaski na sequência. Chegado o grande momento, histeria coletiva, catarse absoluta. Os caras no palco lançavam uma porrada atrás da outra e galera na pista respondia à altura, abrindo uma roda destruidora. Foram sessenta minutos de uma intensidade difícil de traduzir.

“Tem coisas que acontecem para confirmar movimentos. Quem tá aqui já vê isso há muito tempo. Quem não costuma vir, pôde ver hoje como é da hora”, disse o produtor Rafael Tudesco. “A gente está na época em que se fala muito, se mostra muito. Por isso o bacana do festival é lembrar que o negócio é fazer. Não interessa o que você tá falando, interessa o que você tá fazendo”, completou.

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Jam Session foi tiro, porrada e bomba (Renan Olivetti/I Hate Flash)

No alto do terraço, debaixo do viaduto ou no meio da pista, a noite de Madureira já estava completamente dominada pelo #DáPraFazer. Antes de encerrar meus afazeres jornalísticos, só mais uma pequena tarefa-barra-honraria. Conversar com Lei di Dai, a rainha do dancehall brasileiro. Foram quase dez minutos de risadas, aulas sobre música jamaicana e interrupções para debater com marido e dançarinos quem ficaria com cada Rider que o grupo ganhou de presente. Antes de sair, perguntei o que eu podia esperar de seu show. Ela gargalhou. “Olha, meu, você tá pronto para dançar? Então é isso”.

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Lei di Dai, conexão Kingston-Madureira (Renan Olivetti
/I Hate Flash)

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Sétima arte no sétimo andar (Renan Olivetti/I Hate Flash)

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Noite inesquecível, Madureira! (Renan Olivetti)

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