‘A gente não precisa de roupas novas’: o incrível movimento brasileiro Roupa Livre

A gente não precisa de roupas novas. A gente precisa de um novo olhar. Essa é a proposta de um movimento que vem crescendo e ganhando cada vez mais espaço por aqui. É o Roupa Livre, fundado pelas sócias Mariana Pellicari, Gabriela Mazepa e Elisa Dantas.

Mariana conta que o projeto surgiu há aproximadamente 3 anos, após viver um momento de questionamento no seu antigo trabalho, em uma agência de publicidade. Na mesma época, conheceu a Gabriela e a Elisa, e a empatia foi imediata

Logo tiveram a ideia de criar o Roupa Livre, que inicialmente seria somente um evento. Hoje, ele também é a Oficina Re-Roupa, o Mapa da Mina, o Café com Costura, um aplicativo, cursos diversos, um e-book e serviço de mentoria, entre outros.

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Conheça um pouco mais da história deste incrível movimento que visa tornar o consumo de moda mais consciente no Brasil, país que produziu aproximadamente 6,7 bilhões de peças somente em 2015, e aproveite para se inspirar e para olhar para o seu guarda-roupa com mais carinho e criatividade.

Hypeness (H): Como surgiu a ideia do movimento?

Mariana Pellicari (MP): Há pouco mais de 3 anos, eu estava questionando o meu trabalho e buscando algo novo, já que o mundo da publicidade não me realizava mais. Foi quando participei de uma oficina de Re-Roupa, com a Gabriela Mazepa. Cortar pela primeira vez um vestido e transformá-lo em uma saia e uma blusa mudou algo pra sempre dentro de mim. Juntei isso com o meu desejo de questionar o consumo como um todo e as coisas começaram a se encaixar. Eu comecei então a produzir as oficinas da Gabi e o meu interesse pela costura aumentou, até que fui fazer um curso de costura com a Elisa Dantas, d’A Costureirinha. Contei das oficinas e logo surgiu a ideia de fazermos um evento juntas.

O Roupa Livre nasceu como um evento único pensado por nós três, eu, a Gabi e a Elisa. Quase três anos depois, já foram mais de 50 atividades promovidas pelo projeto, com mais de 40 pessoas oferecendo ou apoiando atividades e mais de 1.200 pessoas participando. Estimamos que mais de 3.500 roupas tenham circulado pelos eventos que a gente já promoveu, ganhando vida nova depois deles, estendendo o seu ciclo de vida e substituindo a necessidade por mais peças novas pela criatividade em praticar este novo olhar.

Olhando de trás pra frente, percebo que o Roupa Livre cresceu de um evento para se tornar um movimento de uma forma muito natural. Não planejamos que fosse assim, mas acabou acontecendo. Fomos entendendo que além de fazer eventos e oficinas, onde as pessoas praticam e experimentam uma nova relação com as roupas, podíamos contribuir fornecendo informações e outras soluções para ajudar as pessoas a terem esse novo olhar para as roupas.

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H: O que exatamente é o Roupa Livre?

MP: É um projeto que cria alternativas à forma descartável de consumir roupas, buscando aproveitar ao máximo o que já existe pronto e ao mesmo tempo incentivar a criatividade de encontrar soluções para lidar com o excesso que temos no mundo hoje. Ele funciona através de iniciativas para que as pessoas possam criar uma relação mais carinhosa, cuidadosa e afetiva com as roupas que vestem, conectando quem busca este outro tipo de relação e propondo eventos, cursos, mentorias, livros digitais, mapeamento de iniciativas, produção de conteúdos, criação de um aplicativo de trocas e muita mão na massa.

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H: Quem faz o Roupa Livre?

MP: Hoje, entre eu, Gabi e Elisa, cada uma delas toca o seu projeto individualmente, sendo que só eu segui tendo o Roupa Livre como o projeto principal. Elas seguem contribuindo para fazer o projeto rolar, porém em iniciativas pontuais. E é assim com cada iniciativa, grupos de trabalho se formam para realizar tarefas específicas. Somente eu participo e participei articulando todas as atividades até hoje. Além de mim, de forma mais fixa a Bárbara Porner, estudante de moda da UDESC, contribui articulando as oficinas, produzindo as iniciativas junto comigo, principalmente em Floripa onde moro atualmente e escrevendo para o Blog. O Henrique Rangel, nosso desenvolvedor, também tem uma contribuição recorrente e super presente. Ele é o cara dos códigos do Roupa Livre App, fazendo as trocas rolarem pelos celulares Brasil a fora. E o Larusso que é o designer do projeto e cuida de toda a identidade visual do projeto.

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H: Você trabalhava com publicidade. Quando percebeu que aquele não era o seu lugar?

MP: Essa mudança se deu quando na minha vida pessoal passei a fazer escolhas que priorizavam questões que não eram coerentes com o que eu vivenciava no trabalho. Enquanto eu me preocupava em entender de onde vinham as coisas que eu consumia, fazer escolhas melhores de alimentação, cuidar da saúde, desacelerar o ritmo, optar por outros meios de transporte para além do carro, o meu dia a dia trabalhando com publicidade era focado em buscar soluções para dizer para as pessoas comprarem mais (sem propor que elas refletissem se precisam mesmo de mais) e ainda concorrerem a um sorteio de um carro em datas comemorativas. Foi ficando cada vez mais difícil conseguir energia para seguir com este tipo de trabalho. Percebi que não tem como separar vida pessoal da vida profissional, afinal sou um ser só, e também ficou cada vez mais forte a vontade de contribuir para que outras formas de nos relacionarmos com as coisas florescessem. O Roupa Livre nasceu no meio disso, mas não é o único projeto em que trabalho atualmente. Em termos gerais, o que eu faço hoje é buscar contribuir com projetos que gerem vida. Coloco as habilidades que eu desenvolvi trabalhando com comunicação à favor de projetos e pessoas que busquem gerar mais vida neste mundo através do Hell Yeah, produzindo conteúdos sobre este assunto, como os posts que tenho escrito para o  blog da Insecta Shoes e outros projetos de conteúdo nesta linha.

H: Como era sua relação com a moda antes do projeto? Você comprava muito? Mais do que o necessário?

MP: Sempre busquei me sentir bem, bonita e confortável, mas nunca me senti incluída neste universo amplamente conhecido como o mundo da moda. Mesmo assim, sem ligar muito para as tendências, eu comprava muito mais do que o necessário. Tinha cartões de todas as lojas de fast fashion. Quando acabava um parcelamento, voltava a loja para começar outro. Houve um tempo em que consumir desta forma teve uma importância para mim, eu reconheço isso e tenho consciência de que era importante sentir que eu podia ter as peças que eu queria. Era tão importante que o meu primeiro salário foi gasto todo em uma única calça jeans, de uma marca bem cara. Hoje percebo que aquela era uma realização vazia. Passei a me sentir mais bonita, confortável e mais segura de mim com menos roupas no armário. Eu vivi na pele a busca por me sentir realizada através do consumo e não atingi isso. E é baseada nesta experiência pessoal que eu busco inspirar as pessoas.

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H: Da onde surgiu essa paixão pela reciclagem da moda?

MP: Eu sempre gostei de trabalhos manuais, bordados e outras técnicas, mas foi durante a oficina de Re-Roupa da Gabi que eu vi o potencial que a roupa pode ter de transformação. Como disse, através da transformação de uma roupa, todo o meu olhar pra vida mudou. Então acho que a roupa tem esse papel poderoso de ser isca para transformações maiores. Não sou apaixonada por roupas, não valorizo demais o que eu visto. Eu sou apaixonada por este potencial de transformação a partir delas. Percebo que funciona como uma isca. A pessoa chega pela roupa e abre um novo olhar para tudo. É impossível não participar de um encontro de trocas e não se imaginar trocando qualquer outra coisa. O mesmo nas oficinas e outras atividades. No fundo daria para propor estas experiências a partir de qualquer outro objeto de consumo, acho que o foco ficou nas roupas pelo papel que elas ocupam nas nossas vidas (quase 100% do tempo estamos com elas junto ao corpo) e principalmente ao tomar conhecimento dos impactos da produção desta indústria que é uma das maiores e a segunda maior poluente.

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H: O que é o Mapa da Mina? Como ele foi desenvolvido?

MP: O Mapa da Mina é resultado de ter entrado em contato com tantas soluções para lidar com mais carinho e cuidado com as roupas ao longo destes anos articulando o Roupa Livre. Em um determinado momento, e de tanto ouvir as pessoas perguntando como elas poderiam praticar este novo olhar para as roupas, decidi abrir uma planilha listando todas as dicas que eu sabia, aberta para que outras pessoas pudessem dar suas dicas. Com o passar do tempo a lista ficou grande e surgiu a necessidade de visualizar tanta informação num mapa. E assim ele chegou ao formato em que está hoje. Comunicamos todas as etapas deste processo de evolução em posts e vídeos. Tentamos ao máximo ir contando o que estamos fazendo pra deixar a porta aberta para quem quiser contribuir.

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H:  Como surgiu o e-book?

MP: O E-book surgiu de uma forma bem parecida com o Mapa da Mina. É uma forma da gente reunir indicações e reflexões dentro de uma linha de pensamento organizada para facilitar que as pessoas possam aderir a estas formas de lidar com as roupas que tanto falamos. Também foi uma forma que encontramos para receber apoios financeiros pelo trabalho que estamos realizando, uma vez que a pessoa pode baixá-lo gratuitamente ou pagar um valor escolhido por ela para fazer o download. A ideia é em breve atualizar este e-book e lançar mais alguns, só está nos faltando tempo para fazer isso, mas ideias e conteúdo já temos de monte!

H: O Roupa Livre Weekend é um evento sazonal? Em quais cidades ele acontece? E a Oficina Re-Roupa, como funciona?

MP: Foi ele que deu início ao Roupa Livre. Foi um fim de semana de atividades para que as pessoas pudessem colocar em prática esse novo olhar para as roupas. Hoje em dia participamos e realizamos eventos deste tipo, mas sem utilizar este mesmo nome. No último final de semana, por exemplo, realizamos o Rebobine, pfvr. Com uma proposta bem parecida com a do RLW, esta iniciativa foi articulada junto com o Modefica, Puxadinho, Re-Roupa e Lucid Bag, entre outros parceiros. Sempre no mesmo espírito de reunir alternativas, trocar experiências e facilitar o acesso das pessoas à estas formas de se relacionar com as roupas. De forma geral já realizamos eventos em SP, Floripa e Rio. Em breve vamos participar de um evento em Salvador e aos poucos vamos tendo condições de levar a proposta para outras cidades, através de embaixadores, pessoas que querem levar essas propostas para as suas cidades e se dispõe a organizar. O primeiro evento organizado por uma embaixadora será em abril, no Recife.

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H: Vocês apoiam diversos movimentos sociais, através do Pimp my Roupas e do Café com Costura, por exemplo. Como surgiu a ideia de usar o projeto para causar impacto social?

MP: O objetivo de tudo isso sempre foi criar impacto social. Tudo está conectado e se você melhora a forma como se relaciona com o que te veste ou te rodeia, você transforma a realidade ao seu redor.  Então o projeto sempre teve este viés muito forte. A parceria com o Pimp My Carroça e a mecânica que desenvolvemos com o Café com Costura, são frutos dessa vontade que é comum a todas as iniciativas. Com o Pimp participamos de um dia de atividades de revitalização de uma cooperativa de reciclagem em SP e estávamos por lá transformando as peças dos trabalhadores da cooperativa e ensinando pontos básicos de costura. Uma forma de, através da roupa, valorizar a auto estima e distribuir conhecimento. Já no Café com Costura, o objetivo é organizar mutirões onde produzimos peças para algum projeto que esteja precisando, como o Preto Café (um café colaborativo) que precisava de um enxoval com toalhas e aventais ou que possa vir a gerar renda para o mesmo, ou então como uma ONG de Floripa que recebeu o dinheiro da venda de peças do brechó deles que transformamos para leiloar.

H: O que é o Roupa Livre Talks?

MP: Foi uma tentativa de fazer bate papos on-line recorrentes, que acabou rolando uma única vez e de um hangout coletivo nasceu o grupo no Facebook, onde o papo rola só que de forma mais livre. Todo mundo pode postar, divulgar suas iniciativas, pedir ajudas e dicas por lá. Continuamos participando de rodas de conversa e propondo trocas de ideias, mas sem uma frequência fixa ou regularidade determinada. É uma coisa que temos vontade de retomar, mas de novo, falta tempo

H: Vocês acabaram de lançar um aplicativo, que vem sido chamado do “Tinder das Roupas Usadas”. Como ele funciona?

MP: A ideia do App é proporcionar que a pessoa possa ter um encontro de trocas sempre disponível no celular dela. Ela nasceu depois de organizarmos alguns encontros deste tipo e perceber que as pessoas tinham muito trabalho de levar as peças até um evento e conseguir trocar por algo que gostavam. Se a pessoa pode acessar a troca sempre que precisar de uma peça nova, fica viável fazer esta substituição.

Ele funciona na lógica da combinação, ou seja, você cadastra as peças que quer trocar, visualiza as peças cadastradas por outras pessoas e vai curtindo ou descurtindo as peças que forem sendo exibidas. Se combinar, se você curtir a peça de alguém que curtiu uma peça sua, abre um chat e vocês poderão combinar a troca. O papel do App termina aí. A combinação da troca fica toda sob responsabilidade de quem participa.

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H: Como vocês avaliam o consumo da moda no Brasil? Enxergam um exagero?

MP: Apesar da indústria da moda ser a segunda maior empregadora do país, não há como negar que já existem roupas suficientes produzidas. Se seguirmos nesse ritmo, a conta não vai fechar. Além do mais, há muitas fábricas quebrando, muitas lojas fechando e o volume de vendas só está caindo. Em todas as matérias sobre este assunto, a pauta gira só em torno da crise sem levar em conta o fator “já temos demais”. Seria muito mais transformador encarar este fato de frente e agir em busca de criar soluções de negócio para lidar com o que já existe do que tentar fazer sobreviver uma forma de produzir que não faz mais tanto sentido. Precisamos urgentemente descobrir o que fazer com os resíduos têxteis, com as roupas que não tem mais condição de uso e uma série de outras questões que esta indústria não tem levado em conta e para onde a criação de inovação e soluções não está sendo direcionada.

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H: A gente precisa de roupas novas? Deem uma dica para os leitores de como eles podem começar a praticar um consumo mais consciente da moda, sem exageros e excessos!

MP: Na grande maioria dos casos a gente não precisa de roupas novas. Existem muitas possibilidades dentro do que já existe. Seja lá qual for a tecnologia ou inovação na produção, ela envolve gasto energético, o que reusar uma peça que já está pronta não demanda. Então todas as escolhas devem colocar isto como prioridade: escolher o que já existe. A partir desta linha de raciocínio, Como sugere a nossa pirâmide, a gente recomenda que as pessoas invertam a lógica de prioridades e coloquem o usar bem o que se tem em primeiro lugar, seguido da busca por consertar, transformar e trocar para trazer novidade pro armário. Depois que todas estas alternativas tenham se esgotado, aí sim abrir a possibilidade de buscar a compra de algo novo. E neste caso, priorizar materiais que sejam de mais fácil reaproveitamento ou biodegradáveis e também buscar conhecer o processo de produção para garantir que os envolvidos tenham tido condições dignas de trabalho. Nem sempre é fácil encontrar estas soluções, mas é isso que nos motiva diariamente a facilitar que existam e que sejam acessíveis estas alternativas.

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Todas as fotos © Renata Miguez/Pimp My Carroça/Reprodução Facebook/Roupa Livre

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Via Hypeness

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