Advogada e produtora cultural criam plataforma para estimular a presença de mulheres no mercado musical

O número de mulheres em cargos de liderança no Brasil subiu 11% ano passado, na área de CEO e na área financeira, segundo a pesquisa International Business Report (IBR). Na música não é diferente. As minas têm marcado presença em todos os gêneros musicais, inclusive no sertanejo, que sempre foi protagonizado por homens e pelo discurso machista.

Sem limites, elas estão fazendo barulho não só no palco, mas também nos bastidores. Nesse contexto surge o Women’s Music Event, uma plataforma de música, negócios e tecnologia que veio para destacar a participação e promover a inclusão de mulheres no mercado da música. A iniciativa é inédita no Brasil e nos faz lembrar daquele movimento punk feminista da década de 1990, o “Riot Grrrl” nos EUA, onde as manas ganharam espaço mostrando que garotas sabem tocar guitarra, bateria, ou baixo tão bem quantos os homens.

WME texto

Duas mulheres grandiosas estão à frente deste site grandioso: a produtora cultural Claudia Assef e a advogada Monique Dardenne, ambas com experiência no mercado musical e ambas conhecedoras das dificuldades de quebrar os estereótipos desse cenário. Suas armas de combate vêm em forma de conteúdo, divididos em quatro pilares dentro do portal: “Notícias”, abordando tecnologia e negócios, “Conferência”, para reunir palestrantes, “Profissionais”, em que é possível se cadastrar dentro das 30 profissões da música e “Eventos”, para divulgar shows e apresentações.

Após essa primeira fase virtual, acontece a etapa do lançamento físico do WME, em março de 2017. Serão realizados eventos, divididos em dois dias de conferências e duas noites de shows e festa em São Paulo. O evento contemplará cerca de 50 mulheres, entre artistas, executivas, jornalistas, técnicas, engenheiras e produtoras que irão palestrar nos 12 painéis e 6 workshops da programação, além de shows e também discotecagem.

Para ilustrar estratégia de empoderamento feminino, conversamos com Monique sobre a quebra de padrões da mulher na música: “Queremos mudar o mindset da indústria, mostrar que existem muitas mulheres talentosas que são capazes de cumprir funções a priori delegadas aos homens”, determina-se. Também falamos sobre o preconceito que essas mulheres enfrentam o tempo todo ao ter que provar sua competência num meio predominantemente masculino, sobre as diferentes carreiras e ferramentas que elas podem assumir dentro desse mercado e sobre a visibilidade que o WME pretende atingir ao colocá-las frente à frente. Com vocês, o poder em forma de www.

De onde surgiu a ideia do WME?

Tivemos a ideia de criar o Women’s Music Event depois de ter participado de vários painéis sobre o papel da mulher na música, nos quais nos chamavam para mediar ou participar. Acabamos conhecendo pessoalmente ou reencontrando várias profissionais da música super gabaritadas, sobre quem pouco ou não se ouve falar. Pensamos “ué, por quê não criar um momento em que a mulher tenha voz em todos os painéis, em vez de ficarmos segregadas num só?”. Assim nasceu a iniciativa de fazer o Women’s Music Event, com o objetivo de ser uma conferência da indústria da música sob a perspectiva feminina, através do olhar das mulheres do mercado.

Qual é o papel do WME? Como a plataforma pode ajudar mulheres da música?

Quem trabalha no meio da música sabe o quanto o machismo ainda é vigente, não apenas por parte dos homens mas de muitas mulheres também. A mulher na música tem que seguir um script que é: ser bonita, cantar bem, rebolar (mas não muito), ser magra, malhar, estar sempre de bom humor e maquiada… Ou seja, o que se espera das mulheres no meio música é que se comportem como manda o figurino! Mas cadê o espaço para que as mulheres se desenvolvam em outros papéis nesse universo? Como managers, bookers, engenheiras de áudio, iluminadoras, CEOs etc? Esses espaços a gente pouco vê preenchido por mulheres, assim como em meios mais dominados por homens, como o da música eletrônica. Os line-ups ainda são muito pouco abertos a talentos femininos. Queremos mudar o mindset da indústria, mostrar que existem muitas mulheres talentosas que podem provar com trabalho que são capazes de cumprir funções a priori delegadas aos homens. Viemos pra acelerar um movimento que já vem se desenhando, mas que está longe de estar num cenário de igualdade. Sabemos que isso ocorre em muitos campos, mas como nós duas temos uma longa estrada na música, resolvemos focar nesse universo para atuar com uma plataforma que fosse capaz de catalisar essa mudança. Queremos que, daqui a algum tempo, a gente nem precise mais pedir por essa igualdade de espaço, mas até lá… tem muito trabalho a ser feito!

Qual a importância de reunir esse conteúdo numa única plataforma?

É fundamental que a gente seja um showcase dos talentos de mulheres de diferentes backgrounds dentro da indústria da música e não só dar espaço para cantoras e DJs. Queremos dar espaço para falar sobre profissionais que tenham experiência em outras áreas, entrevistar e dar visibilidade para produtoras, managers, empresárias, bookers, técnicas de som etc. Divulgando o trabalho feito por essas profissionais poderemos atuar com um conteúdo aspiracional para mulheres/garotas que desejam entrar para a indústria mas não necessariamente como artistas. Tem todo um universo de profissões na indústria da música que nem sempre é conhecido ou divulgado.

Um dos principais pilares da nossa plataforma é o Cadastro de Profissionais, uma ferramenta super importante em que as profissionais da música poderão se cadastrar para serem encontradas por empresas e/ou contratantes em todo o Brasil. Temos listadas nesta ferramenta mais de 30 profissões da indústria musical. O banco de dados pode ser filtrado por profissão, nome ou estado, para facilitar a vida de quem busca uma profissional em sua região. Já estamos com 200 mulheres cadastradas, que entraram ali de forma orgânica, isso em menos de 1 mês de site no ar. Queremos causar um impacto social de verdade, que não fique apenas no discurso.

WME 3 cadastro de profissionais

Por que é difícil de encontrar mulheres que trabalham como técnicas de som ou roadie, por exemplo?

Elas existem por aí aos montes! Uma página no Facebook chamada Female Pro Audio Brasil reúne mais de 200 mulheres no país, que trabalham em profissões técnicas. Fato é que o costume de chamar sempre “os caras” é algo muito enraízado na indústria, e essas meninas têm bastante dificuldade de adentrar esse clube do bolinha.

Quais outros movimentos você pode citar que vão de encontro com o WME?

Felizmente têm muitos eventos pipocando por aí, o Sonora, que reúne compositoras, o Feminine Hi-Fi, mais focado em reggae e soundsystems, e outros! A gente quer ser um hub de todos esses eventos e atuar forte pra amplificá-los e reunir mulheres do Brasil inteiro que estiverem a fim de fazer contatos, trocar informações e ajudar nesse longo caminho de aumentar o protagonismo da mulher na música.

Você acha que a mulher é subestimada na música? Já presenciou algum evento\situação desse tipo para compartilhar com a gente?

Difícil de responder, porque às vezes a atitude machista pode ser bem sutil, na entrelinha, daí é a mulher que fica tachada como paranóica, né! Mas sim no geral se espera que a mulher seja bonita, cante bem, seja magra e que não seja muito espertinha! Ou então que seja uma produtora eficiente, que resolva as coisas, e se for muito “brava” acaba sendo chamada de “sapatão”.

O melhor exemplo é o discurso maravilhoso de uma das maiores artistas do universo da música na premiação da Billboard. Se a Madonna se sentiu humilhada e subjulgada diversas vezes ao longo de 37 anos de carreira, quem somos nós pra dizer algo mais?

As personagens femininas sempre são mulheres fisicamente maravilhosas, que geralmente usam roupas super desconfortáveis, como saias, maiôs e salto alto, mesmo que elas precisem lutar ou sobreviver ao fim do mundo. Assim como acontece com a Mulher Maravilha, Viúva Negra, Lara Croft, Mulher Gato, As Panteras, Lolita, Pocahontas, você acha que também acontece a sexualização das cantoras? Como?

Perfeito a sua colocação. É bem isso. Se você for pensar, quantas divas do pop você lembra de terem feito sucesso usando camiseta e calça jeans? A objetificação na música é um reflexo da nossa sociedade, é o que se espera da mulher, mas, espera, estamos em 2017 e cada um deveria ser apreciado pelo seu trabalho e não pela roupa que está usando, certo? Errado.

Existe competitividade no meio musical entre as mulheres ou elas foram coagidas a isso? Como você enxerga essa situação?

Nós mulheres nascemos sob a imposição de uma máxima, que á a seguinte: mulheres têm que brigar com outras mulheres pra serem as mais bonitas, conseguirem o melhor marido e o melhor emprego, como uma boa auxiliar aos seus líderes. Seja isso um reflexo da teoria freudiana da Inveja do Pênis ou apenas um hábito da sociedade, de subjugar a mulher, a competitividade entre mulheres sempre foi algo visto como natural e até desejado. Enquanto os homens historicamente sempre praticaram a “brodagem”, uma palavra bem simpaticona, as mulheres tiverem que se habituar com a sororidade, quase um palavrão! Acontece que sem esse sentimento de irmandade, não vamos sair do lugar.

Via Hypeness

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