Sobre cosméticos, meio-ambiente, ativismo e direitos humanos

Quando pensamos a sustentabilidade no nosso dia a dia, há uma série de mudanças simples que podemos incorporar para impactar menos o planeta com nosso modo de vida já tão ‘insustentável’. Não utilizar sacolas plásticas, reduzir o consumo de produtos com embalagem, reciclar o lixo (por favor né gente!), adquirir uma composteira, priorizar alimentos orgânicos e reduzir o consumo de carne são algumas das práticas mais disseminadas na busca por uma vida mais amiga do planeta.

O problema é que em alguns departamentos, nossas práticas diárias pouco fazem efeito, já que o impacto advém da própria indústria que produz os bens de consumo. Um caso muito emblemático é o da indústria cosmética e dos produtos para higiene pessoal, que preocupam por impactar o ecossistema em frentes diversas, reduzindo nossa capacidade de dimensionar o quanto estamos afetando negativamente a natureza.

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Na pior das hipóteses, aquele creminho-shampoo-sabonete que você usa diariamente pode: adquirir matéria prima de fontes duvidosas (leia-se desmatamento, agrotóxicos, trabalho semiescravo), testar seus produtos em animais (sem comentários!), pecar pelo excesso de embalagens (que aumenta nossa produção de lixo), agredir nosso corpo (com substâncias tóxicas como é o caso dos parabenos e outros conservantes) e, para coroar, poluir rios e lençóis freáticos depois que a coisa toda vai pelo ralo.

Achou ‘over’? Tem muito mais… Mas resolvemos nos ater ao principal já que o objetivo aqui não é só falar do problema e te fazer sentir culpa e angústia, mas sim apontar algumas soluções e caminhos possíveis.

London Calling

No começo de setembro fomos convidados pela LUSH (aquela marca de cosméticos que tem lojas mega cheirosas com sabonetes em barra imensos cheios de sementes etc, sabe?) para ir a Londres participar do Lush Creative Showcase. Antes que você xingue e diga que isso é um publi e ninguém te avisou vamos deixar uma coisa bem clara: ISSO NÃO É UM PUBLI. E nem poderia ser pois faz parte da filosofia da marca investir 0% em marketing. Mas pera que você já vai entender melhor como isso funciona.

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Bom, voltando, o Lush Creative Showcase é um evento totalmente voltado para inovação, criatividade e ativismo. “Mas pera, ativismo?”. Isso mesmo, ativismo. O que acabamos descobrindo durante essa experiência é que é possível sim uma marca de cosméticos, multinacional no caso, ter sucesso comercial e ao mesmo tempo colocar valores e causas ambientais e humanos em primeiro lugar na sua lista de prioridades.

Power to the People

Quando a marca fala em abraçar causas, a sensação que dá é que não se trata de construir uma imagem bonita, mas de ativismo de verdade. A LUSH tem até mesmo uma diretora de ativismo, que elenca causas, bandeiras e pensa estratégias para que a marca possa ajudar a amplificá-las. Isso mesmo, a LUSH serve às causas e não o contrário e também está entre as preocupações da empresa não tirar o protagonismo das organizações às quais se associa.

Alguns exemplos de causas e bandeiras abraçadas são…

Direitos animais

Na última quinta-feira, 22 de setembro, a Corte de Justiça da União Europeia decidiu que países membros do bloco europeu podem proibir a comercialização de cosméticos testados em animais dentro de seus territórios, mesmo que os produtos que tenham sido fabricados e testados fora do território.

Um pouco antes disso, em junho deste ano, foi a Austrália quem decidiu colocar em vigor uma lei que pretende banir até julho de 2017 a venda de qualquer produto que tenha sido testado em animais, proibição que inclui desde maquiagens até pastas de dente.

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Esse é também o caso da LUSH que além de não praticar os tais testes, luta para que eles sejam completamente extintos da indústria cosmética. Os produtos da LUSH ainda são 100% vegetarianos e 80% veganos (alguns levam leite ou mel) e por sua constituição natural agridem muito menos o meio ambiente. A empresa trabalha também com a Política de Boicote Específico ao Fornecedor, o que significa que não compra de nenhum fornecedor que trabalhe com testes em animais.

Meio ambiente e saúde

Uma das principais preocupações da LUSH é com o impacto que a indústria cosmética pode ter no meio ambiente e na saúde humana. Pensando nisso, investiram em testes e pesquisas para eliminar totalmente o óleo de palma, principal ingrediente de alimentos processados, assim como de sabonetes e cosméticos. O objetivo – alcançado com sucesso – era eliminar o uso desse material, responsável pela devastação de florestas tropicais e pelo êxodo de populações indígenas.

Outra preocupação é com a embalagem dos produtos e a produção de lixo. Para isso, utilizam o mínimo necessário de embalagens. Cerca de 40% dos produtos que você encontra nas lojas ou no e-commerce são produtos pelados, ou seja, sem embalagens. Quando o invólucro é essencial, a opção é por materiais reciclados. Os shampoos sólidos, por exemplo, evitam a produção de 6 milhões de de garrafas plásticas globalmente.

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Rose Picking, Turkey Rose Picking, Turkey

A empresa também trabalha com a ideia de usar o mínimo possível de conservantes, 40% dos produtos da marca são totalmente livres dessas substâncias. Para conseguir esse resultado, são utilizados ingredientes frescos e quantidades mínimas de água. Quando há a necessidade dos conservantes por conta do volume de água, a opção é por substância seguras e menos agressivas para a pele, em quantidades mínimas.

Diversidade

A LUSH sempre teve a diversidade como um valor indiscutível e coloca isso em prática em sua política de contratações. Diversidade pode ser entendida aqui como um conceito amplo que engloba cor da pele, cultura, nacionalidade, orientação sexual, religião, condição física, entre outros.

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Depois do atentado em Orlando, a marca decidiu falar com ainda mais intensidade da questão LGBT e da importância do respeito e da conquista de direitos, lançando novas campanhas e produtos para dar visibilidade para a causa.

Internet contra o desligamento

A mais recente campanha abraçada pela LUSH Global foi a #keepiton, criada pela ONG AcessNow. Trata-se de um movimento global contra os desligamentos de internet com motivações políticas, que aconteceram em diversos países. A ONG mapeou que, durante os períodos em que o sinal permanecia cortado, um número sem precedentes de violações dos direitos humanos aconteciam.

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Compra ética

Na busca pelos melhores ingredientes, o grupo entendeu que precisaria buscá-los pelo mundo afora. Mas para garantir que nem a distância fizesse com que a marca perdesse o controle, foi criado um sistema de rastreabilidade de matéria prima que garante o compromisso com as comunidades e áreas de onde vem determinado óleo ou planta, por exemplo.

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A ideia é garantir que os ingredientes sejam comprados de uma forma respeitosa, protegendo o meio ambiente e promovendo impacto social positivo. Para isso, os compradores da empresa viajam o mundo visitando fornecedores, conhecendo agricultores e produtores para garantir o cuidados com o meio ambiente e as condições justas para os trabalhadores.

Slush Fund

A mecânica do SLush Fund é direta e honesta. 2% da quantia que a Lush gasta com matéria-prima e embalagem são doados para o fundo, que reverte a quantia para iniciar cultivos sustentáveis e projetos comunitários a partir do zero. Alguns desses projetos acabam se tornando inclusive fornecedores da marca.

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Imigração/refugiados

O grupo faz questão de defender em campanhas (e praticar em suas contratações) a ideia de que os países como os conhecemos hoje só são o que são graças às pessoas que vieram de outras culturas e realidades, independente do motivo que as fez deixar sua terra.

#tambéméviolência

No Brasil, marca abraçou uma campanha para exigir dos tribunais, através de uma denúncia pública entregue ao presidente do TJSP, o cumprimento efetivo da lei de proteção a qualquer tipo de violência contra a mulher. Os tribunais não têm reconhecido denúncias sobre violências psicológica, patrimonial e moral – apesar de constarem como violência doméstica de acordo com Lei Maria da Penha nº 11.340/06 (artigo 7º, incisos II, IV e V).

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Charity pots

Em 2007, a Lush criou um creme corporal cuja arrecadação é revertida 100% (menos impostos) para algumas ONGs e organizações de impacto socioambiental, o Charity Pot. A escolha foi por apoiar projetos menores, que não tinham tanta visibilidade. Quase 10 anos se passaram e a iniciativa continua firme e forte. Veja a lista completa dos projetos apoiados aqui.

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Como sustentar isso tudo?

Durante o LUSH Creative Showcase, conversamos com Jack Constantine, filho de Mark e Mo Constantine, criadores da marca, e diretor executivo da LUSH Digital. Nosso objetivo com a conversa era entender como é possível sustentar tantos valores e ainda manter a empresa funcionando em escala global.

jack_portrait_edited_11 Jack Constantine, filho de Mark e Mo Constantine, criadores da marca, e diretor executivo da LUSH Digital

Ele explicou que a decisão em não investir em marketing, por exemplo, é por acreditarem que existem outras áreas em que o dinheiro pode ser mais bem investido como por exemplo nos ingredientes, em seu frescor e em sua origem. “Acreditamos que não colocando dinheiro em marketing, podemos redirecionar essa verba para ações e causas que promovam impactos positivos no mundo”, conta. “Também é muito mais divertido trabalhar assim pois temos que inovar na hora de pensar maneiras de engajar pessoas e criar conteúdos”, diverte-se.

Jack explica também que eles apostam muito mais na internet e no digital como meio para comunicar suas ideias e valores e que isso acaba sendo um grande desafio, mas também tem trazido grandes resultados. “O fato de investirmos menos em marketing e mais em produtos acaba fazendo com que nossos produtos sejam a própria propaganda de si mesmos e podemos comunicar isso pela web”.

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Para criar uma ponte entre a ideia de produtos frescos e feitos artesanalmente e o universo digital eles acreditam que uma ótima saída é aproximar as pessoas do processo de produção dos produtos para que elas entendam e participem do que estão consumindo. Uma ideia nesse sentido é a LUSH Kitchen, plataforma digital em que os consumidores podem pedir produtos, opinar ou adquirir novidades exclusivas em edições limitadas.

E agora?

Depois de tudo isso vale a pena levantar uma questão. Muita gente reclama que os preços dos produtos da LUSH (ou outras marcas ecologicamente corretas) são altos. Mas é importante ter em mente pelo que você está pagando. O capitalismo é cruel nesse ponto e sabemos que na origem de muitos produtos baratos (e caros também, não se iludam!) está uma cadeia de abusos, exploração, poluição, desmatamento, etc… Um outro ponto interessante que pudemos comprovar depois de testar alguns produtos da marca é que eles duram bastante. Então, antes de decidir, faça um teste, coloque na ponta do lápis e veja o que é mais interessante para você.

É importante deixar claro que não queremos aqui convencer ninguém a comprar produtos LUSH ou coisas do tipo. A ideia é trazer à tona algumas questões importantes e provocar uma reflexão. A LUSH é sim uma opção interessante para quem quer encarar o consumo de cosméticos de uma forma mais holística e ecologicamente correta, mas é apenas uma opção. Pesquise, informe-se, procure saber a origem de tudo o que você consome, quem sabe assim possamos ter esperança em futuro melhor para nós, para os animais e para o planeta.

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Fotos: divulgação

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Via Hypeness

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