Na Califórnia dos loucos anos 1980 descobri minha real vocação: a maconha

Era 1986, finalmente a ditadura havia chegado ao seu fim com a ajuda do movimento Diretas Já. No auge de meus 16 anos, meus pais me mandaram para a Califórnia para fazer um intercâmbio estudantil. Sorte a minha! Várias pessoas caiam em cidades do interior, mas eu acabei caindo na casa de uma família, em Costa Mesa, Orange County.

Quando deixei o Brasil, nosso país estava preocupado com a hiperinflação e a legitimidade do mandato de Sarney. Ao chegar nos EUA, lá era travada uma guerra às drogas, pelo então presidente Ronald Reagan. Nesse mesmo ano, o mundo aguardava a passagem do cometa Halley, após 76 anos desde sua última aparição.

Nessa época, o que eu mais gostava de fazer era pegar onda e fumar maconha (não necessariamente nessa ordem) e então, sempre pegava a bike e ia de Costa Mesa até Huntington Beach pedalando e brisando pelos canais que estavam secos.

Um dia, resolvi matar aula e ir pedalando com minha prancha no rack lateral da bike, e depois de 1:30h de pedalada, cheguei no melhor point para pegar onda, no píer de Huntington Beach, e o mar estava flat. E agora?

Jeff Divine/ Trunk Archive - Church Beach, San Clemente, Califórnia, 1984 Jeff Divine/ Trunk Archive – Church Beach, San Clemente, Califórnia, 1984

bike-prancha

Sem saber muito bem o que fazer, resolvi explorar melhor a área e encaroçar algumas lojas. Nos anos 1980 para 1990, as lojas eram muito segmentadas. Tinha skate shop, surf shop, lojas de discos de rock e metal, lojas de punk, mas nada era junto na mesma loja, cada tribo em seu canto.

Depois dar algumas voltas, vi do outro lado da rua uma loja que tinha umas pranchas de surf jogadas no gramado, uns skatistas e uns metaleiros saindo, uns punks fumando e todos habitavam o mesmo lugar sem problema algum; aquilo me atraiu imediatamente, mesmo sem saber o que vendiam ali.

punks-anos-1980-autor-desconhecido

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Ao parar na porta, percebi vários produtos muito coloridos, mas não consegui identificar direito o que eram. Entrei e comecei a passear com meus olhos pelos coloridíssimos bongs de acrílico e vidro que ali estavam… Trituradores, sedas de inúmeros tipos, cachimbos etc. E ainda, tinha uma seção totalmente dedicada a cartões postais. (Sou da época em que sequer existiam e-mails, de uma geração que vivia offline, da era analógica. Todo mundo que viajava, sempre enviava um cartão postal para ilustrar a viagem e contar como estava.)

maconha

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Naquele momento, meu sonho me escolheu e descobri o que queria fazer para o resto da vida. Não, não era fumar maconha (risos). Isso também, mas era trabalhar com a venda de produtos ligados à erva e com todo o universo cultural que a envolve. Eu finalmente, havia conhecido uma head shop (lojas especializadas em parafernália para fumo e que surgiram da cena de contra cultura hippie, no final dos anos 1960).

rasp E parece que a tal da loja existe até hoje… Valeu Raspberry Roach!!

Nunca me esqueci daquele lugar… Nem do nome e do visual da loja. Ela foi a nave mãe que me inspirou. Muito obrigado por tudo, Raspberry Roach, sem vocês a Ultra420 não existiria.

ultra420-cz Olá Ultra 420! 😀 <3

Em meu próximo texto, vou contar para vocês sobre o famoso Verão da Lata. Fiquem ligados e acompanhem essa breve história da maconha no Brasil, da qual participei quase que desde o início.

ale

Alexandre Perroud é pioneiro, aventureiro, ‘hempreendedor’ e acredita transformar sonhos em realidade. Criador da Ulltra420, tem como hobby escalar vulcões ativos.

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Via Hypeness

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